CAPÍTULO
XX
Montado a cavalo, Vartan passou o dia inteiro à procura de Dudukjian. Percorreu várias
aldeias. Às suas perguntas, respondiam que de fato, tinham visto um moço
trajado à “europeu”, com um chapéu preto de aba larga, de botinas e com uma
enorme bengala. Além disso, carregava uma sacola cheia de livrinhos. Mas
quase todos estavam de acordo para dizer que ele não era normal e que
parecia mais um louco.
À noitinha, Vartan
voltou à fazenda sem ter encontrado o seu amigo errante, Porém um dos
pastores do velho Khatchô disse que tinha visto o forasteiro numa aldeia bem
ao sul e que estava apanhando por vários aldeões turcos. Vendo que ele era o
hóspede de seu patrão, o pastor tinha ido socorrê-lo e conseguira arranca-lo
das mãos dos biltres.
"Estava
esperando algo assim", disse Vartan
para sí mesmo e voltando-se para o pastor perguntou:
- "Por que batiam
nele?"
-"Não entendi
direito", respondeu o pastor, "quis colocá-lo numa mula para trazê-lo até
aqui, mas recusou. Disse que viria a pé. Como pôde! Está tudo quebrado de
tanta surra!"
Essas notícias
entristeceram Vartan, Ele conhecia o peso das batidas dos camponeses turcos,
principalmente quando tratava de surrar o coitado de um Armênio.
-"Onde você o
deixou?"
-"No meio do
caminho. Estava cambaleando."
Acendiam-se os
lampiões quando Dudukjian apareceu, sujo de lama da cabeça aos pés. Vartan
esperava que contasse tudo que tinha acontecido, mas nem tocou no assunto.
Seu semblante refletia imenso cansaço e profundo desespero.
Foi direto à cama
e jogou-se nela.
- "Tem um pouco de
fumo?" disse ele dirigindo-se a Vartan.
-"É para já",
respondeu o moço e deu-lhe o que pedia.
Este, com as mãos
trêmulas confeccionou um cigarro.
-"Esse povo é um
verdadeiro enigma, um Esfinge", disse ele em voz baixa, "a gente tenta
entendê-lo, estuda-o, mas assim mesmo não consegue compreendê-lo. Ou esse
povo não tem passado ou teve um passado singular."
Parou para soltar
a fumaça do cigarro. Parecia que com isso queria espantar todas as suas
decepções.
Vartan
se mantinha silencioso. Observava com atenção esse moço cheio de vida e o
comparava a essas borboletas inexperientes que volteiam ao redor da luz do
lampião e com suas asinhas tentam apagá-lo.
Pouco depois
chegou o velho Khatchô e, como estava anoitecendo, todos os filhos
apareceram um após outro. Logo serviram o jantar visto que era a época da
colheita e eles precisavam comer logo, ir deitar logo, para poder levantar
de madrugada,
Durante o jantar,
Dudukjian bebeu muito e pouco a pouco a tristeza desapareceu. Quando tiraram
a mesa, Dudukjian voltou-se para o velho Khatchô e disse: “Mande fechar as
portas, quero falar em particular com vocês”.
O ancião ficou
admirado; o que poderia falar de tão importante? Mas assim mesmo mandou
fechar todas as portas. Todos esperavam em silêncio o que o hóspede tinha a
dizer.
-" Logo logo, vai
haver uma guerra entre a Rússia e a Turquia. Vocês estão ao par?"
-" Nos nunca
ouvimos falar nisso," disseram eles.
-"Eu sabia" disse
Vartan."Na minha região, os Russos estão se preparando intensamente."
O velho Khatchô
ficou petrificado com a notícia. Na sua longa existência, tinha assistido
algumas vezes às guerras entre Turcos e Russos e sabia das terríveis
conseqüências que os Armênios irião sofrer,
Hairabed começou a
entender porque Fattah Bei distribuíra armas para os seus.
- "É", disse
Vartan, "como diz o ditado :O cavalo briga com o jumento e é o
buro que morre.”
- !É assim mesmo!"
confirmou Hairabed, "com isso são os Armênios que mais vão apanhar."
-" Eu sei disso",
disse o velho Khatchô com uma voz rouca.
"Ouçam!' voltou a
falar Dudukjian tentando explicar-lhes com palavras simples aquilo que
achava que poderia acontecer." Esta guerra entre a Rússia e a Turquia não
vai ser iguais às outras. O propósito difere completamente das outras vezes.
Eu sei que vocês não lêem jornais. Vocês não sabem o que se passa nesse
mundo afora. Vocês nunca ouviram falar dos Balcãs. Lá, existem também vários
povos cristãos iguais à nós, que estão há séculos vivendo sob o jugo
otomano. Mas eles não são como nós. Não quiseram esperar mais,
revoltaram-se, e eis aqui mais de um ano que estão lutando contra os
sanguinários Turcos para poderem se libertar definitivamente. Lutaram com
denodo, ganharam, perderam, inúmeras vidas foram sacrificadas até que em
nome de Jesus Cristo, os Russos entraram na batalha para ajudar seus
correligionários. O representantes das grandes potências européias se
reuniram em Constantinopla a fim de conseguir alguns direitos e um pouco de
liberdade para esses países subjugados. Porém nada conseguiram. Agora os
Russos esperam obter pela força não somente aquilo que foi pretendido em
Constantinopla, mas sim a liberdade total dos povos cristãos."
Esses
acontecimentos, apesar de serem conhecidos no mundo inteiro representavam
uma absoluta novidade para os camponeses armênios que escutavam,
boquiabertos, a explanação de Dudukjian. Sabiam que os Turcos estavam em
guerra, mas por que e contra quem, isso eles não sabiam. Ficavam sabendo
disso somente quando os impostos aumentavam mais e mais, e eram cobrados com
mais rigor pelos coletores que repetiam sem cessar: “O Império está em
guerra, é preciso ajudá-lo.”
-"A Rússia está,
hoje em dia, lutando para salvar os Cristãos que vivem no Império Otomano",
prosseguiu Dudkjian. "E vocês sabem que entre os Cristãos, o povo mais
sofrido e mais pisado é o povo armênio. Vocês já sentiram na pele as
barbaridades cometidos pelos Turcos. Pois agora é a hora de vocês pensarem
em viver um pouco em paz."
-"Não temos nada
para pensar", respondeu o velho Khatchô,"o Sr. mesmo está dizendo que os
Russos estão combatendo para libertar os Cristãos. Que Deus os ajude e que
venham libertar a gente".
- "Isso é
verdade," se intrometeu Vartan, "mas tem uma coisa. Dizem que: que não
chora, não mama. Se os Armênios não se manifestarem e ficarem quietos
esperando que as coisas vão acontecer conforme suas preces, estão muito
enganados. Os Armênios devem também protestar."
-"É isso mesmo,
devem protestar," repetiu Dudukjian,"devem fazer da mesma maneira que os
outros povos cristãos e...."
- "O Sr. quer
dizer que nos também devemos lutar?"cortou o ancião.
-"Sim, é isso que
quero dizer. O nosso mundo, desde os tempos imemoriais, sempre foi assim:
aqueles que não pegam nas armas, que não querem derramar sangue, que não
querem lutar, matar ou morrer, não merecem a sua emancipação, a sua
liberdade. Assim, se os Armênios desejam a liberdade, devem demonstrar que
também são corajosos, que sabem matar e morrer. E agora, chegou a hora!"
Um sorriso amargo
despontou na face enrugada do ancião. Ele retrucou:
-Meu Deus! Como
vão demonstrar que são corajosos, que sabem matar! Os Turcos confiscaram
todas as nossas armas. Não temos nem uma faca para matar um frango."
Dudukjian não
tinha nenhum argumento para responder, quando Vartan entrou na conversa.
-"Se quiserem
lutar, eu arrumo as armas. Vocês sabem do que vivo. Conheço todos os
caminhos, os atalhos e para mim é fácil contrabandear as armas."
-"Somente as armas
não são suficientes" contestou o precavido Khatchô. "Vocês são capazes de
insuflar para os Armênios daqui, primários e analfabetos, aquele ardor,
aquela coragem que os outros Cristãos possuem e lutam pela liberdade, em
outras plagas? De que servirão essas armas nas mãos desse povo oprimido."
-"Não é justo
julgar todo um povo dessa maneira, fazendeiro Khatchô", disse Dudukjian,
"nosso povo não perdeu totalmente a sua coragem, e o momento propício. E é
agora! Os Russos vão lutar contra os Turcos, vamos nos juntar a eles. Tenho
certeza que nos ajudarão de uma maneira ou de outra."
Os filhos de
Khatchô ouviam tudo no mais profundo silêncio. Um deles que se chamava Hagô,
aquele que na semana anterior, durante a reunião entre os irmãos tinha
sugerido que o melhor para todo mundo era que Lalai se casasse com o Bei
Fattah pois assim estariam protegidos para sempre, esse mesmo Hagô voltou-se
para o forasteiro e disse:
-"Amigo! você
irradia fluídos negativos, com cheiro de sangue. Nos não queremos estar nem
do lado do bem, nem do lado do mal. Amanhã cedo, pegue suas coisas e caia
fora! Senão mil e uma desgraças vão se abater em cima desta casa."
O velho Khatchô
mandou seu filho calar e disse:
-"Não fique
chateado com as palavras de meu filho, ele não sabe o que diz. Agora preste
atenção. Não estou ao par de nada que está se passando nos outros países. O
que eu sei, é que sou um agricultor. E nós, não semeamos nada antes de
preparar a terra. Rasgamos suas entranhas, já que sabemos que senão, nada
crescerá, nada tomará raiz. E isso, foi Jesus que disse, está na Bíblia. Já
ouvi várias vezes essa parábola na igreja. Por enquanto, filho, a terra não
está preparada; quero dizer com isso que o povo não está preparado. É
preciso preparar a terra com vinte, trinta ou talvez cinqüenta anos de
antecedência. Se, de fato, isso tivesse acontecido, hoje a semente cairia
numa terra fértil e brotaria, cresceria, amadureceria; e teríamos cem ou mil
tipos de frutas e legumes. Não se faz nada num dia para outro. Todo mundo
sabe que devemos deixar passar várias estações após a semeadura e a terra
vai sofrer, agüentando o frio, a tempestade, a chuva, até receber os
benditos raios de sol. E aí sim, estaremos preparados para a colheita. O
nosso povo é exatamente o retrato dessa terra e terá que passar por muitas
provações e por algumas horas de alegria para estar preparado.
-"Que lindo
exemplo!" exclamou Dududukjian,"estou de pleno acordo com o Sr. Mas há mais
um detalhe para levar em consideração. Vou tentar falar agora o vosso
linguajar, o linguajar dos fazendeiros, dos agricultores, dos pastores isto
é dos camponeses para que entendam melhor. Após ter semeado a terra,
experimentem deixá-la à mercê das estacões, sem cuidar dela. As ervas
daninhas, imediatamente, tomaram conta dela. As sementes serão aniquiladas.
Poderão perceber então não ser o mais forte o vencedor dessa batalha. Em
todas as plantações existem essas batalhas, essa guerra surda cuja meta é a
sobrevivência. E aquele não está disposto em se defender será riscado do
mapa. Essa disposição para a luta se chama sobrevivência. O grande mestre
que ensina a sobrevivência se chama Natureza. A Natureza proporciona a todo
ser vivo, o dom da luta. Mais acentuado para uns, menos para outros.
Árvores, plantas, animais e homens possuem esse dom. Somente as pedras,
madeira, seres inanimados permanecem imóveis e não sabem se defender, visto
não serem vivos. Mas onde existe a Vida, há sempre essa luta. Isso se chama
a luta pela vida onde não somente é preciso se defender, mas também dar cabo
de seus inimigos para poder-se viver felizes e livres do perigo. Espero
agora que me fiz entender. Tudo que acontece com plantas e animais, também
acontece com humanos. Aqui também temos as mesmas lutas, porém muito mais
selvagens, muito mais ferozes. Conforme a civilização e o desenvolvimento,
as armas para se defender mudam. Quando digo “as armas” não me refiro
somente à espada e ao fuzil, mas também às ciências, às artes, com as quais
um povo pode predominar um outro. Nos povos mais retrógrados, essa luta se
resume à luta física, isto é com a espada. São as armas usadas pelos Turcos
e pelos Curdos para nos aniquilar. As leis da sobrevivência prescrevem o
revide usando as mesmas armas do inimigo. Não estou lhes pedindo para pegar
as armas e atacar os Turcos e Curdos e livrar o país legado pelos nossos
antepassados para vivermos em paz. Estou simplesmente pedindo para pegar as
armas para nossa defesa e sobrevivência. Há uma grande diferença entre esses
dois conceitos e....”
O velho Khatchô
interrompeu o discurso de Dudukjian e disse:
- “Entendo muito
bem, entendo tudo que você disse, mas vou repetir o que disse há pouco: não
se mudam as coisas de um dia para outro. Como explicar para esse povo o que
é “sobrevivência”? E como convencê-los a não ser mais subservientes? Há
muito tempo vocês da capital, deveriam ter explicado para a gente o que é
“sobrevivência”. Assim hoje, quando do início da guerra, os grãos semeados
se transformariam em frutos tão almejados. Vocês não nos prepararam, ficaram
em silêncio todo esse tempo lá em Constantinopla e hoje querem que peguemos
as armas para combater Turcos e Curdos para sobreviver. Quem pode acreditar
ser isso possível?”
- “ Vocês têm
razão. Permanecemos indiferentes todo esse tempo. Não prevenimos vocês” ,
respondeu Dudukjian, imperturbável. “Não estou questionando o fato de vocês
não possuírem as qualidades de nossos ancestrais (e certamente vocês as
possuem), mas são qualidades a serem buriladas, pois necessitam de uma boa
formação e instrução, as quais, nós da capital, deveríamos ter-lhes
administrado. Estou falando de sobrevivência. E para isso não é preciso
formação e nem instrução. O sentimento de sobrevivência, como expliquei há
pouco, é tão natural que é inerente às plantas, aos animais e aos bárbaros.
Será o Armênio inferior a uma planta? Será tão inerte quanto um pedaço de
madeira ou de pedra?
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