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CAPÍTULO XXVI
Na casa do velho Khatchô estavam
todos muito preocupados com Salman, pois até tarde da noite não retornara.
Principalmente Vartan, Hairabed e Abô, estavam muito apreensivos achando ter
algo de ruim lhe acontecido. Começando a clarear, os três saíram à procura
do companheiro.
Ao meio-dia, sem avisar, apareceu
Thomás Efendi. A sua chegada repentina, sozinho e sem guarda costas, pareceu
muito estranho aos olhos do velho Khatchô. Nunca tinha acontecido algo
semelhante. Com ar misterioso, aproximou-se do ancião, pegou-lhe a mão e
puxou-o de lado, como se fosse lhe contar grande segredo e disse meio sério,
meio irônico:
_ “Sabe, aquele tocador de düdük
foi preso, algemado e levado até o quartel”.
Logo o velho Khatchô percebeu de
quem estava falando. Começou a tremer e faltou pouco para desmaiar.
_ “Fica firme, não é momento de
entrar em pânico” aconselhou o Efendi, “Tenho ainda muita coisa para lhe
dizer”.
Com efeito, soubera que na véspera,
Salman fora a uma aldeia vizinha onde reunira vários camponeses e tentara
lhes explicar o significado dos “Direitos Humanos”. Falara de tirania,
despotismo e da maneira como agir para se livrarem disso tudo e ter assim
condição de vida melhor. Em suma, dissera besteira atrás de outra. De
repente, surgiram vários guardas da polícia militar e o algemaram. O
Governo, há muito, estava à procura desse idiota e vários de seus
companheiros já estavam presos. Agora esse também caíra na ratoeira. Tomás
Efendi deu todos os detalhes, mas deixou de mencionar ser ele o delator.
Voltou-se novamente para o velho :
_” Agora temos um problema mais
sério”, disse ele com um sorriso triste que fez estremecer o coração do
velho Khatchô. “logo logo, os guardas estarão aqui para fazer uma busca. Por
isso vim correndo para preveni-lo meu amigo”.
Dizendo isso, fez questão de
enfatizar o “meu amigo”. Ao ouvir as palavras “guardas e busca”, o velho
Khatchô ficou petrificado.
_ “Mas ainda há tempo para eu poder
salvá-lo”, disse Tomás Efendi agora mais sério. “É só me dizer se ele deixou
aqui algo que possa lhe incriminar”.
O velho Khatchô sentiu imenso
alívio ao saber que seu “amigo” estava disposto a ajudá-lo num momento tão
difícil.
_ “Sobrou somente uma mochila”,
disse ele olhando em sua volta temendo ser ouvido por outra pessoa.
“É o momento de tirar o burro
da lama”, pensou Tomás Efendi “Sobrou uma mochila, já é alguma
coisa”.
_ “Não vamos perder um minuto,
vamos esconder a mochila antes de os guardas aparecerem. Cada segundo é
precioso”.
O ancião absolutamente convencido
da sinceridade de seu “amigo” levou-o até o “odá” e mostrou-lhe a mochila
jogada num canto.
_ “Tranca a porta”, recomendou o
Efendi, e começou a revistar o interior da mochila. Havia várias cartas de
recomendação com os respectivos endereços, letras de câmbio ao portador,
instruções, mapas, etc...e também uns livretos de propaganda para serem
distribuídos. Tomás Efendi examinava tudo atentamente sacudindo a cabeça de
tempo em tempo.
_ “Se um só desses papeis cair na
mão de um agente do governo, você e seus filhos serão enforcados e todos os
seus bens confiscados”.
O velho Khatchô gelou e não
conseguiu articular uma só palavra.
_ “É preciso queimar tudo isso”,
disse o Efendi enfiando novamente os papeis na mochila.
_ “Não estou entendendo. Estou
tonto com tudo isso”, respondeu o ancião com voz tremula.
De repente, Tomás Efendi mudou de
idéia “Porque queimar?” matutou ele “É melhor estudar toda essa
papelada a fundo; poderá servir mais tarde”.
E perguntou ao velho camponês:
¾“Existe
nesta casa esconderijo onde possamos guardar esta mochila?”
¾
Sim, existe.
De fato, existiam vários. Neles se
guardavam tudo que havia de precioso, pois neste país o perigo era
permanente. De todos, um só estava vazio e para lá o velho Khatchô levou
seu “amigo”. Situava-se no porão da casa. Estava repleto de latas de azeite,
de banha e de pipas de vinho. O chão estava revestido de lajes. O velho
levantou duas delas deixando aparecer um alçapão constituído de duas grades
de ferro trancadas por cadeado. O ancião tirou uma chave do bolso e abrindo
o cadeado levantou as duas tampas deixando entrever uma pequena escada
levando a uma espécie de masmorra. Os dois desceram cuidadosamente, pois
reinava absoluta escuridão. Colocaram a mochila num canto e logo subiram. O
velho Khatchô fechou as duas grades de ferro, trancou-as com o cadeado, pôs
a chave no bolso e recolocou as lajes em cima delas. Ninguém poderia supor
haver ali um esconderijo.
¾”Me
dê a chave” disse Tomás Efendi, “estará mais seguro comigo. Você sabe que,
se há pessoa em quem você pode confiar, sou eu.”
O ancião entregou a chave sem
pestanejar. Estava tão apavorado que atenderia a qualquer pedido do Efendi.
¾
“Tenho ainda muita coisa para lhe dizer meu velho Khatchô, mas não temos
muito tempo, os guardas podem chegar de um momento para outro”, disse Tomás
Efendi apressando-se. “Assim mesmo vou te dar alguns conselhos. Preste bem
atenção. Ninguém pode saber que estive aqui, nem mesmo teus filhos. Quando
os guardas chegarem, não demonstre estar com medo. Pelo contrário fique
calmo e banque o ingênuo. Deixe-os procurarem a vontade. O objeto perigoso
está muito bem guardado, nem o Diabo o acharia. Se eles perguntarem daquele
“tocador de flauta”, diga que veio pousar aqui, e praticamente não conversou
com ele e nem sabia o motivo dele vir para esta região”.
Ao terminar seus conselhos,
arrematou:
─ "Agora, me mostre outra saída.
Não quero sair pela porta da frente. Não quero ser visto por ninguém".
O velho Khatchô levou-o aos fundos
da casa, passou pelo estábulo e mostrou-lhe o portão para o vai e vem do
gado.
─ "Até logo, então. Voltarei mais
tarde, assim que os guardas forem embora. De qualquer jeito, vou falar com
eles e advogar sua causa, não tenha medo."
Tomás Efendi se afastou, repetindo
de si para si:"agora você vai comer na minha mão, mestre
Khatchô, vou conseguir tudo que quero".
Era uma hora da tarde. Vartan,
Hairabed e Abô ainda não tinham voltado. Seus outros filhos estavam na roça,
as mulheres ocupadas na cozinha. Era preciso mandar-lhes o almoço. Os
camponeses, em geral, costumavam almoçar no campo e voltavam somente à
tardinha para jantar. Ninguém, pois, sabia do acontecido.
O velho Khatchô esperava impaciente
a vinda dos guardas, assim como o condenado a morte espera a hora fatídica
sabendo não haver escapatória. Não queria também contar para ninguém o
sucedido para não assustá-los.
Por fim apareceu um sargento
acompanhado por vários guardas e soldados.
Os moradores da casa não sabendo de
que se tratava não ficaram, a princípio, amedrontados. Estavam acostumados a
receber esse tipo de hóspedes que vinham, comiam, bebiam à vontade,
pernoitavam por algunas dias e depois iam embora. A pousada dos soldados
turcos era a casa dos camponeses armênios e principalmente a do velho
Khatchô.
─"Tenho ordens para revistar a
casa", disse o sargento dirigindo-se ao dono da casa.
─ "Minha casa está à vossa
disposição", respondeu o velho Khatchô tentando abafar as batidas do seu
coração.
O sargento mandou fechar todas as
portas e em frente a cada uma delas colocou sentinela. A revista começou
pelo "odá" e continuou por todas as outras dependências. Examinavam
minuciosamente, todos os objetos e seu conteúdo, nada deixando de lado. As
mulheres, percebendo algo de anormal acontecendo, começaram a chorar e a se
lamentar em voz alta. O velho Khatchô ordenou-lhes calar, explicando não
haver nada a temer.
─ "Aqui pousou um cidadão chamado
Mikael Düdükjian, não é verdade?"
─ "Ficou aqui por alguns dias, é
verdade."
─ "O Sr. já o conhecia?"
─ "Foi a primeira vez que o vi."
─ "Então por que o acolheu?"
─ "Sou o prefeito desta
cidadezinha, e vocês conhecem o nosso costume. A casa do prefeito é uma
espécie de pousada, onde qualquer forasteiro, qualquer viajante, pode
hospedar-se por alguns dias. Como conhecer todos aqueles que vão e vêm a
minha casa?"
─ "Ele não deixou nada aqui?"
─ "Não, nada."
─ "O Sr. não percebeu quais eram
suas intenções?"
─ "Não nos disse nada. Só sei ser
professor."
─ "O Sr. pode me dizer com quem ele
se encontrou ou conversou?"
─ "O professor falava com todo
mundo, angariava alunos."
─ "O Sr. sabe onde está agora?"
─ "Não sei, não."
─ "Está preso!"
─ "Bom! Se é mau elemento, foi bem
feito!"
Naquele instante bateram na porta.
─ "Ninguém pode entrar!" gritou o
sargento.
Apareceu um criado dizendo:
─" É Tomás Efendi".
─ "Ele pode", respondeu o sargento.
Tomás Efendi adentrou a casa e
parou, fingindo-se espantado ao ver um sargento acompanhado de soldados,
como se não estivesse a par de nada.
─ "Muito bom dia! o que está
acontecendo por aqui?"
O sargento explicou-lhe o fato em
poucas palavras.
Um sorriso hipócrita brotou nos
lábios de Efendi. Pegou no braço do militar e disse:
─ "Corto minha cabeça se vocês
acharem alguma coisa aqui. Vocês não sabem o quanto este homem é bom e
gentil."
Levou o sargento para o "odá"
enquanto os guardas e soldados se mantinham nos seus postos.
─"Sr Khatcho", disse ele
voltando-se para o ancião, "essa gente deve estar com fome. Mande preparar
um belo almoço, e com bastante arak, por favor. Entendeu?"
A última palavra foi proferida em
armênio.
O velho Khatchô, radiante, saiu do
"odá", pensando o perigo ter passado.
Mas o perigo não tinha passado. Os
Turcos não iam deixar passar esta oportunidade. Queriam judiá-lo,
atormentá-lo, torturá-lo. Gostariam de deixá-lo mofar durante meses na
cadeia. O fato de nada ter achado que pudesse comprometê-lo, de não ter
nenhuma prova contra ele, não era o bastante para inocentá-lo. Bastava ser
Armênio e rico. Não deixariam passar facilmente uma presa tão importante
assim.
Tomás Efendi tinha delatado Salman
ao chefe do Exército recém chegado na região, e sugerira a revista na
fazenda do velho Khatchô, para assim poder passar por “grande amigo" aos
olhos do ancião. Agora para completar sua trama estava urdindo mais um
plano.
Quando o fazendeiro deixou o
recinto onde estavam para mandar preparar a refeição dos soldados, o
sargento virou-se para Tomás Efendi e disse:
─ “Efendi! Qual é sua opinião. Para
mim, parece ele estar inocente”.
─ “Veja bem, chefe. Não sou
daqueles que dão um veredicto na hora”, respondeu Tomás Efendi, “para mim há
ainda alguns pontos obscuros. Pensava descobrir aqui algum objeto ou
qualquer outra coisa para provar a ligação entre o preso e os moradores
desta casa. Assim mesmo não acredito não haver vínculo entre eles. Nós,
Armênios, damos ênfase a uma palavra; é a palavra“confissão”. E eu sei como
fazer confessar. Sinceramente, desconfio de dois dos filhos do fazendeiro e
de um amigo deles: um estrangeiro que se hospeda aqui”.
─”Que tipo de estrangeiro?”
perguntou o sargento.
─ “É um Russo. Jovem, muito
perigoso e odeia nosso governo. Perambula por aqui dizendo-se viajante, mas
na prática é contrabandista. Na verdade é espião russo.”
─ “Se for cidadão russo, vai ser
difícil prendê-lo”, ponderou o sargento.
─ “Quando seu país está em guerra,
é normal prender um espião. E o Sr. sabe que logo logo a guerra vai ser
declarada.”
─ “Claro que eu sei”.
─O que ele me disse foi procurar
cumprir suas ordens.
─”Muito bem!” disse Tomás Efendi,
abrindo um largo sorriso. Pode deixar que organizarei tudo.Tenho algo mais
para lhe dizer, mas o comunicarei mais tarde.
─ “Fale agora! não gosto de esperar
pelo “mais tarde”.
Apesar de não ter ninguém no odá
além dos dois para ouvir o que quer que seja, Tomás Efendi sussurrou-lhe
no ouvido :
─ “O velho é muito rico. É preciso
sugá-lo ao máximo”.
Tomás Efendi conhecia muito bem o
ponto fraco dos funcionários turcos. Sabia ser para eles, a revista da casa,
por mais minuciosa que fosse, algo secundário. O que contava era como
arrancar dinheiro desse fazendeiro. Tomás Efendi aproveitando-se deste ponto
fraco, queria chegar onde pretendia. Por isso ficou radiante quando o
sargento perguntou:
¾”Então,
como proceder?”
─”Sargento! o Sr. tem muitos homens
aqui sob sua ordens. Coloque o velho Khatchô e dois de seus filhos, Hairabed
e Abo, sob estrita vigilância e mande prender o forasteiro russo cujo nome é
Vartan.”
O sargento anotou os nomes de
Hairabed, Abô e Vartan.
─”Sei que hoje, as suas ordens eram
para revistar a casa, mas a revista não terminou. O Sr. deverá vigiar estas
pessoas de quem eu falei e revistaremos com mais afinco toda a fazenda na
presença do Paxá, comandante supremo desta região”.
─”Entendo”, anuiu o sargento.
─Vou fingir ser mediador, advogando
a causa deles, para melhor descobrir seus segredos. O Sr. entendeu?”
─”Entendi”, repetiu o
sargento.
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