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CAPÍTULO XXVII
Enquanto Tomás Efendi expunha ao
sargento o seu plano diabólico, lá fora, os guardas conversavam sobre
assuntos diferentes.
-“Mahmud”, disse um deles, “se
passarmos a noite aqui, qual das moças armênias você escolheria?”.
-“Gostei muito daquela linda
baixinha de bochechas coradas.”
-“Eu fiquei louco por aquela de
olhos pretos”, tornou o primeiro.
Era óbvio. Durante a revista os
guardas prestaram mais atenção às noras do velho Khatchô do que à tarefa a
cumprir. O ponto fraco do muçulmano é mulher. O resto não lhes interessa.
Alguns repararam nos belos
objetos da casa.
-“Minha mulher não me deixa em
paz” disse um dos mais idosos, “o dia inteiro fica me perturbando dizendo
querer um caldeirão de cobre.Vi um na cozinha; preciso levá-lo de qualquer
jeito.”
Um deles que parecia mais um
conscrito, disse:
-“Reparei num lindo tapete bem
fofo que me serviria perfeitamente para fazer a sesta ou fumar um narguilé
preparado pela mulher amada”.
O mais velho interessado mais
pela religião, ponderou:
-“Esse tapete serviria melhor
como tapete de oração.”
Um outro cheio de preconceito e
inveja, acrescentou:
-“Nunca consegui entender uma
coisa! Como esses guiavur podem ter mulheres tão bonitas. Como podem ser
donos de propriedades tão grandes? Em casa, não temos nem capacho velho para
meus filhos deitarem nele. Eles dormem no chão. Esses guiavur deveriam ter
uma cinta esgarçada, para que quando tossirem a cinta se rasgar em mil
pedaços.”
Esta última frase estava na boca
de todos os muçulmanos. Usavam-na como provérbio. No Oriente a beleza e a
espessura da cinta é sinal de riqueza. Esse guarda, na sua mentalidade de
muçulmano, queria todo guiavur com cinta podre, para quando tossir a mesma
se rasgar. O Armênio não tinha direito de ter esposas tão lindas, pois era
guiavur. Tudo que é bonito, belo e valioso deveria pertencer aos muçulmanos.
Alguns guardas, nada tendo para
fazer, entraram no lindo jardim da fazenda. Feito animais, com nada se
importando, pisoteavam as lindas flores desabrochadas, flores que tinham
custado tanto trabalho às noras do velho Khatchô. Puxavam os galhos das
árvores e às vezes os quebravam para colher algumas frutas. Comiam as
maduras e pisavam nas caídas no chão. De longe o velho Khatchô observava a
cena e sentia um aperto no coração. Ele gostava muito de suas árvores, tanto
quanto dos seus filhos. Tristemente, balançou a cabeça e naquele exato
momento lembrou de dito persa que diz: “Quando um comandante entra numa
chácara e arranca uma maçã de uma árvore, o resto da tropa acabará com todas
as frutas da chácara”. O Turco adora este tipo de provérbio. Aquele que
trata as plantas dessa maneira certamente tratará as pessoas da mesma forma.
O Turco costuma comer todas as frutas de uma árvore até acabar com ela. Da
mesma forma o Turco se apodera de tudo que pertence ao homem e o mata. Assim
como não cuida dos bosques e florestas, tampouco se importa com outros povos
que vivem no Império.
O velho observava as
barbaridades cometidas pelos guardas sem poder se manifestar. Dirigiu-se à
cozinha onde as mulheres preparavam as refeições. Sentia-se preso em sua
própria casa, e seus algozes não demonstravam nenhum reconhecimento pela
hospitalidade.
-“Que tipo de gente é essa, que
chega aqui somente para pisotear tudo
que encontra?” disse Sara com
voz embargada.
-“Só Deus sabe” respondeu o
velho e recomendou pôr a mesa o mais depressa possível.
As mulheres estavam literalmente
apavoradas. Escondiam-se, na medida do possível, a fim de sair da vista dos
guardas. Estavam percebendo algo de anormal acontecendo, para eles agirem
com tanta impudência. Até esta data já acontecera várias vezes ter de
hospedar soldados ou guardas turcos, mas a casa do velho Khatchô fora sempre
preservada.
Hairabed e Abô que tinham ido à
procura de Salman junto com Vartan ainda não haviam regressado. Os demais
filhos, ouvindo lá na roça o tumulto causado pelos guardas turcos, acorreram
às pressas. Estavam muito bravos; não com os militares, mas com o pai, o
pobre velho Khatchô. Os servos hostilizam sempre o lado mais fraco. Acham
normal ser espezinhados e pisoteados pelos seus algozes; culpam sempre
aqueles que, submissos iguais a eles, provocam a ira do tirano. Por isso, os
filhos do ancião não poupavam ralhos e insultos para com o pobre pai.
Condenavam-no por ter hospedado pessoas tão perigosas como Vartan e Salman e
estavam dispostos a procurar o sargento para lhe contar tudo que sabiam a
respeito desses dois forasteiros, esperando que, com essa atitude, o
sargento se mostrasse mais indulgente.
¾ “O Sr. está arruinando nossa
casa com suas próprias mãos!” bradavam eles”.
¾”É o que merece aquele que tem
filhos iguais a vocês. Deveria amaldiçoá-los, pois vocês são covardes sem
brio nem amor-próprio. Não sabem o significado das palavras “dignidade” e
“honradez”. Aquelas pessoas que vocês estão insultando são, com certeza,
meus verdadeiros filhos e não vou sofrer de jeito nenhum se, por causa
deles, vier a perder tudo que tenho”.
Naturalmente, as pessoas a quem
se referia eram Salman e Vartan. Os filhos ficaram com mais raiva ainda. O
experiente fazendeiro, temendo que cometessem um ato impensado, os acalmou
dizendo não ter medo, pois não era difícil subornar funcionários turcos e
além disso Tomás Efendi prometera ajudá-los em todos os sentidos. Os filhos
sossegaram um pouco: mencionar o nome de pessoa importante sempre
impressionou esse tipo de gente.
Naquele mesmo instante, ouviu-se
a voz do Efendi :
¾”Fazendeiro Khatchô! Rápido! É
preciso dar de comer a toda essa gente”.
¾”É para já, Efendi!”, respondeu
o ancião.
Imediatamente foram postas as
mesas. Uma pequena no odá para o sargento, Tomás Efendi e o velho Khatchô e
outra grande, lá fora embaixo das árvores, para a tropa. Os guardas estavam
em pleno alvoroço. Nessas ocasiões, quando está na casa de Armênio abastado,
o soldado turco se torna exigente. Em geral, inculto e grosseiro, quer
aparentar uma pessoa fina, conhecedor de bebidas afamadas e pratos
requintados. Bebidas e iguarias das quais nunca ouviram falar. Ao pedirem um
prato diferenciado, não aceitavam ouvir a resposta:”Infelizmente não tem” e
retorquiam com insultos e xingações. Apesar desta vez não ter acontecido
nada disso, os filhos do velho Khatchô tiveram muita dificuldade em atender
todos os pedidos desses inesperados intrusos.
O sargento e Tomás Efendi
sentaram-se na mesa do odá, mas o ancião na quis sentar e serviu-os feito
criado, para mostrar-lhes a sua deferência.Por seu turno os soldados
apreciavam as delícias do arak e das iguarias. Aproveitando um momento, o
velho Khatchô aproximou-se de Sará e lhe cochichou:
─"Filha, junta tudo de valor e
esconda-os. Você sabe onde..."
─"Eu sei", respondeu a nora com
olhos cheios de lágrimas. Entendera ser essa precaução prenúncios de graves
acontecimentos.
─"Agora escute bem e não se
assuste", continuou o ancião " nós já presenciamos muitas desgraças desse
tipo. Tudo isso vai passar com a ajuda de Deus; só é preciso paciência.
Depois de esconder todos os objetos de valor, você vai reunir as suas
cunhadas com seus filhos e mandá-los para a casa de seus respectivos pais.
Depois você pega a Lalai e a leva para a casa do Zacô. Espere lá até vermos
como vai terminar tudo isso".
Os pais de algumas noras viviam
na aldeia de O ..... e outros em povoados vizinhos. Somente os pais de Sará
viviam longe, em Bayazid. Por esse motivo o velho Khatchô pedira para ir até
a casa de Zacô em quem tinha absoluta confiança.
─"Tem mais uma coisa",
acrescentou o ancião," Hairabed, Abô e Vartan saíram de manhã cedo à procura
de Düdükjian. Não devem saber o que está se passando por aqui. Ao voltar,
vão cair no meio dessa desgraça. Manda logo uma pessoa ao encontro deles
para avisá-los dos acontecimentos e diga para se esconderem e esperarem meu
sinal".
Esta últimas palavras deixaram
Sara ainda mais preocupada. Então seu marido tão querido estava também em
perigo? Por quê? O que ele teria feito? Em que era culpado? Porém Sará era
muito esperta para não ter percebido as críticas de seu marido, as quais
atraíam uma permanente encrenca.
─"Mandar quem?" perguntou ela
com voz aflita, enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas mais uma vez.
A pergunta da nora era
pertinente. No perigo, irmão não quer saber do próprio irmão; às vezes
tornam-se até inimigos. Nessas condições como descobrir alguém de confiança?
Há poucos instantes, Sará ouvira seus cunhados falarem com raiva de seu
marido.Quanto ódio sentiam por ele!
O ancião adivinhou o motivo das
preocupações de Sará e tristemente lhe disse:
─"Sei não haver ninguém em quem
confiar. Sei que nessa hora todos se afastam da gente. Mas Sacô e Yeghô
estão aqui. São dois homens fortes e corajosos e secundam Vartan há muito
tempo. Vá, rápido! Conta a eles o que está acontecendo e mande-os procurar
Vartan, Hairabed e Abô. Basta dizer para eles que Düdükjian está preso e a
fazenda está sendo vasculhada. Eles entenderão o resto".
O velho Khatchô se afastou com a
certeza de Sará cumprir exatamente recomendações.Voltou-se para o jardim e
olhou para os guardas que trabalhavam para o Governo e eram funcionários
pagos para manter a ordem e agir com justiça. Estes últimos, após beber e
comer do bom e do melhor estavam se comportando muito mal. Os palavrões
espocavam de todos os lados. O ancião não suportou olhar por mais tempo
aquela cena e afastou-se.
Os funcionários turcos em geral
não seguem os preceitos de sua religião; assim, beber arak para eles é
absolutamente natural; na verdade o fruto proibido é mais gostoso. Ao beber,
o Muçulmano torna-se fera e bêbado demonstra sua ferocidade. Maomé sabia
muito bem o que fazia ao proibir o álcool.
No odá, a conversação não era
menos interessante. No início da refeição, o sargento mantivera diálogo
formal, mas após ter ingerido vários copos de arak, começou a se tornar mais
familiar.
─"Quantas mulheres você tem?"
Um sorriso matreiro apareceu no
rosto desgracioso de Tomás Efendi que respondeu:
─"Dizem que fizeram essa mesma
pergunta ao burro e ele retorquiu: a manada inteira."
Quando Tomás Efendi começava a
citar os burros na sua conversa, era sinal de estar eufórico.
─"Mas me disseram ser proibido
aos Cristãos ter mais de uma esposa?” ponderou o sargento.
─"Para os Muçulmanos também é
proibido beber álcool. No entanto o Sr. bebeu mais do que eu”, respondeu o
Efendi", enfatuado com a sua oportuna resposta.
Naquele momento o velho Khatchô
adentrou o odá, trazendo consigo duas caixas de papelão, uma contendo
rahat-lokum e a outra figos de Izmir.
─"É bom adoçar o paladar após a
refeição", disse o ancião e logo saiu do odá.
─"Me parece um bom homem esse
velhinho", disse o sargento."Estou admirado como ele pôde abrigar meliantes
como o espião russo e esse outro que agora está preso."
─"As orelhas do burro são
compridas mas sua mente é curta. Se existem muitos imbecis neste mundo
afora, são justamente aqueles que o Sr. chama de "bom homem".
O Turco parecia ser mais
indulgente que o Armênio.
O sargento voltou a falar:
─"Acho que o nosso novo coronel
vai se aproveitar ao máximo a riqueza do velho."
─"Não tenho a menor dúvida.
Aliás só tolo deixaria escapar oportunidade dessa. Não é todo dia que se
encontra vaca que dê tanto leite!"
─"Você que conhece meu chefe,
que tipo de pessoa ele é?"
─"Eu o conheço muito bem",
redargüiu Tomás Efendi com empáfia."Há dez anos era prefeito de Dikranaguerd.
Lá, roubou tanto que ficou rico e se mudou para Constantinopla onde foi
consagrado Paxá: ele é capaz de despedaçar um burro morto para tirar-lhe os
cascos."
Enquanto o Efendi e o sargento
conversavam e os guardas, já bêbados, cantavam e dançavam esquecendo-se do
motivo de estar alí, as noras do velho Khatchô, segurando pela mão os
respectivos filhos, saíam apressadamente pela porta dos fundos em direção à
casa de seus pais. A tristeza estampava em seus rostos; parecia estar sendo
detidas e nunca mais rever a fazenda onde viviam tão felizes.
Ao mesmo tempo, Yeghô e Sacô,
devidamente uniformizados, montavam em seus cavalos, saíam também por trás,
e disparavam em direção às aldeias mais próximas. Tomás Efendi, com toda a
sua diabólica sagacidade não atinara aos dois companheiros de Vartan que
podiam muito atrapalhar os seus planos.
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