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CAPÍTULO XXVIII
Parte de seu
plano, Tomás Efendi realizara. O principal restava a fazer. Há muito sabia
ser Stepanig uma moça. Embriagado, durante jantar na casa de Tomás Efendi, o
padre Maruk, o qual batizara a menina, havia contado fato que jurara guardar
segredo. A partir daí, Tomás Efendi se enamorara de Lalai. O que representa
amor para homem depravado como ele? Seus únicos anseios consistem em comer,
beber e aproveitar a vida. Satisfazendo-os, sente-se muito feliz. “Amor”
significa absolutamente nada. Convivendo com Turcos desde tenra idade,
adquirira os seus hábitos. O Muçulmano considera uma linda moça ou bela
mulher, simples objeto sexual. Gosta delas como criança de brinquedos. A
criança quer um brinquedo, consegue-o e brinca com ele até enjoar; enjoando,
quebra-o ou joga fora e pede outro. Era exatamente o que representava mulher
para Tomás Efendi. Servia somente para saciar apetites sexuais. Durante
curto lapso de tempo se apegava a uma.Vendo uma mais bonita, largava a
primeira e se empenhava na posse da segunda. Agora seu maior empenho era
conquistar Lalai. Por quê em vez de pedir a mão da moça ao pai, seguia
caminhos tortuosos repletos de intenções diabólicas? É que para cada caso
urdia plano diferente.
Tomás Efendi
era tirano. Tiranos, geralmente, não vão diretamente ao ponto. Gostam de
caminhos sinuosos. O tirano é o caçador que gosta de deixar a caça á
vontade, vigiando-a, tecendo uma teia e colocando armadilhas ao redor. Tomás
Efendi agia exatamente assim. Era sua ética. Fazia tudo para conquistar a
confiança de moça inocente. Para apossar-se de Lalai, colocaria o velho
Khatchô em situação tal que seria impossível negar a mão da filha.
Tomás Efendi
considerava Lalai parte da colheita do velho Khatchô e, como bom arrecadador
sabia aplicar a lei e surrupiar a colheita de qualquer camponês. Se não
judiasse, não maltratasse, não minasse suas últimas resistências, eles não
se entregariam. Segundo esse critério preparara para o velho Khatchô
situação tão complicada que somente ele saberia destrinchar.
Ao denunciar
o ancião e filhos como criminosos políticos , amigos de perigoso agitador e
de um espião russo hospedado por eles, Tomás Efendi tinha em mente
demonstrar às autoridades otomanas lealdade enquanto mandava para o velho
Khatchô recado implícito dizendo mais ou menos: “Vou mandar enforcar você
e seus filhos, incendiar sua casa e confiscar
seus bens. Porém, posso te livrar de tudo isso. O preço é a mão da Lalai”.
Era pura
verdade. Tinha em mãos a chave do esconderijo onde estava guardada a mochila
de Salman, prova irrefutável do envolvimento do ancião. No fundo, sabia
conseguir facilmente o consentimento do velho Khatchô. Por
outro lado, via erguer diante de si sério obstáculo na pessoa
de Vartan. A partir daquele dia, quando Vartan arrancara Stepanig do “odá”,
impedindo-o de acender o seu “tchibuk”, Tomás Efendi percebeu ligação entre
eles, e que se amavam. Além disso, sabia Vartan ser muito querido por toda a
família do fazendeiro e que sentiriam-se felizes concedendo-lhe a mão da
Lalai. Se por acaso lhe negassem, Vartan raptaria a moça e fugiria,
escapando com facilidade pois conhecia todos os caminhos possíveis e
imagináveis, como bom contrabandista que era. Sabia também Vartan ser
bastante corajoso e ousado para cumprir tal tarefa.
Tomás Efendi
analisara tudo isso. A única solução para ele, era levar Vartan o mais longe
possível, de preferência escoltado para a prisão.
Qual a razão
de querer mandar prender também Hairabed e Abô? Suspeitava de ligação deles
com Salman? Não. Nem lhe passava pela cabeça um camponês armênio ter a
ousadia de proteger Salman. Só tinha certeza que dentre os filhos do velho
Khatchô, considerado por ele como "asnos subservientes", dois não
concordariam com seu pedido: Hairabed e Abô. Sempre notou aversão desses
dois para com ele. Por essa razão aconselhou as autoridades a prendê-los
também, eliminando assim mais um obstáculo.
O destino de
Lalai estava indefinido. Três pessoas a desejavam e cada qual traçara uma
estratégia para alcançar seu objetivo: o Bei Fattah, o Curdo, famoso e
atrevido bandido capaz de raptá-la como uma águia esperando oportunidade
para se precipitar sobre a ovelha e a levar para o céu; Tomás Efendi, o
Armênio, tirano de toda a região e, tal o sucuri, se enrola nas vítimas
apertando-as até a asfixia, para depois engolí-las; e por fim, Vartan, o
arrojado e destemido contrabandista, pronto a levá-la consigo de qualquer
jeito, mesmo se não lhe concedessem a mão da sua amada. Sabemos ser o
preferido de Lalai.
Fattah Bei,
ocupado com os preparativos da guerra, mal pensava em Lalai. Vartan
preocupado com Salman. Restava Tomás Efendi que planejando cuidadosamente o
caminho a seguir, colocando todos os trunfos do seu lado.
Após a
refeição, o sargento, bêbado de tanto arak , mergulhou em sono
profundo. Os guardas tinham retomado seus postos, Hairabed e Abô não tinham
retornado ainda. Tomás Efendi achou ter chegado a hora de falar com o
fazendeiro a respeito de Lalai. Deixou o odá e foi à procura do velho
Khatchô. "Agora que comecei, devo ir até o fim. Quem monta num burro
sente-se envergonhado, mas quem cai do burro sentir-se-á muito mais",pensava.
Encontrou o
ancião triste e desanimado. Estava sentado sozinho no pátio, encostado na
parede, tentando aquecer seu corpo gélido com os raios de sol da tardinha.
Os guardas, em estado de embriaguez avançada, cambaleavam, gargalhavam e
faziam gestos obscenos. Agarravam a saia das criadas e as obrigavam a
participar da algazarra. Surravam os criados que ousavam desobedecer às suas
ordens. O velho patriarca observava a cena com mistura de mágoa e nojo.
Nesta casa, onde sentimentos de família eram preservados, onde havia só
pureza, onde nenhum homem dirigia olhar malicioso para uma mulher, a sua
própria casa estava sendo profanada. “Que destino é esse?" pensava o
ancião, "Qual é o sentido de nossa vida? A terra deveria abrir e
engolir a todos nós. O céu deveria cair em nossas cabeças. Ver com os
próprios olhos esses atos sórdidos e ficar quieto. Para que foi feito o
Inferno? E os raios do céu? Por quê esses monstros não estão sendo
castigados?” O velho Khatchô voltou os olhos para o céu. Não obteve
resposta.
Guardas
carregando diversos objetos saiam da casa. Sara que organizara a fuga das
cunhadas, voltara para casa e tentava impedir um dos guardas levar enorme
caldeirão de cobre. Mas ao levar violento soco no peito, estatelou-se no
chão. O velho Khatchô meditava tristemente:” Estão levando tudo sem pedirem
permissão. Afinal, qual minha culpa? De que estão me acusando? É verdade
que eu acolhi um moço que não concordava com a maneira de tratar os
camponeses. Ele pedia simplesmente um tratamento justo e humano para eles.
É por isso que estou sendo castigado, espezinhado e roubado? É verdade que
preconizava também fazermos o máximo para conservar a terra deixada por
nossos ancestrais, não deixar ninguém se intrometer em nosso trabalho e
tentarmos sair do jugo dos tiranos. E o que é que provocou todas essas
pregações? A tirania. Se deixassem a gente em paz, se não molestassem nossa
família, não se apossassem dos nossos bens, se nos tratassem como seres
humanos, aí sim sentiríamos-nos felizes. O próprio Salman dizia “O
pai da Liberdade e da Independência é o
Despotismo; a mãe é a Injustiça” Somente agora estou
entendendo o significado dessa sentença. O tirano cria seus próprios
inimigos. Se o Turco nos tratasse com civilidade poderíamos até gostar deles
apesar de não serem da nossa raça”. Assim meditava o velho Khatchô e
suas idéias se entrechocavam tais quais ondas de um mar enfurecido. Sentia a
amargura da situação e nem conseguia pensar como sair dela. Lembrou do
ditado:”Não se pode bater palmas com uma só mão”. Se todos os
camponeses se unissem poderiam achar solução.
Tomás Efendi
encontrou o velho Khatchô neste triste devaneio e de longe gritou:
¾”O
negócio está feio, fazendeiro Khatchô, muito feio. O burro afundou-se na
lama e não será fácil tirá-lo dali”.
O ancião não
ouviu, mas ao ver Tomás Efendi, levantou-se:
¾”Fique
sentado” disse Tomás Efendi, colocando a mão no ombro do ancião num gesto
amigável, "também vou sentar aqui, não há lugar melhor para conversar”.
¾”Quando
essa gente vai embora daqui?”, perguntou o fazendeiro apontando os guardas
que continuavam suas grosserias.
¾”Eles
se sentem como em festa de casamento. Aqui estamos melhor que em casa, dizem
eles. Por quê ir embora? Têm comida e bebida à vontade” respondeu Tomás
Efendi escarnecendo insolentemente.
Esse
escárnio magoou ainda mais o coração ferido do velho Khatchô. Tomás Efendi
notou e logo mudou de tom.
¾”Não
se preocupe, fazendeiro Khatchô, enquanto Tomás Efendi estiver vivo, ninguém
tocará num só fio de seu cabelo.
¾”Como
não vão tocar?” respondeu o ancião, já com bastante raiva, "Não está vendo?
Estão destruindo minha casa diante de meus olhos, levando meus móveis e eu,
não tenho direito de impedi-los!”.
¾”É
costume deles Quando carneiro entra em matadouro, os cachorros estão à
espreita para abocanhar os ossos. Já está cansado de saber que quando Turco
entra em casa do Armênio, nunca sai com mãos vazias. Mas tudo isso é o de
menos. Dê graças a Deus se levarem somente seus móveis e pouparem sua vida”.
O velho
Khatchô estremeceu. Seus nervos estavam a flor da pele.
¾”O
que há, afinal?”, gritou ele, “se há alguma coisa errada, que digam! Chega
de nos torturar assim! Se é para matar, que matem!"
¾”Tenha
um pouco de paciência” respondeu Tomás Efendi tornando-se mais sério, “vou
te explicar tudo”.
E começou a
discorrer, tomando sempre como exemplo seus famosos burros. “O burro não
dá coice no aguilhão, a não ser que queira se machucar”.Queria
demonstrar com esse dito que os Armênio deveriam sempre agir com prudência e
nunca contrariar os Turcos, principalmente agora que estavam em guerra; e
citou como exemplo o incêndio da cidade de Van. Seus habitantes não eram
fiéis aos turcos. Quis explicar porque os Turcos saquearam e incendiaram
quase todas as lojas pertencentes aos Armênios e concluiu dizendo que fôra
porque os Armênio se tornaram espiões dos Russos. “Que loucura!” continuou
ele, pois Armênios nada podem esperar de Russos. E, salientando novamente a
idéia de “fidelidade”, disse não ser os Turcos tão ruins assim, que o
destino dos Armênios era ligado ao dos Turcos, e portanto qualquer ato de
rebeldia deveria ser considerado como “loucura”. Por isso, não
sentiria compaixão se Salman fosse severamente castigado. O que o aborrecia
, é que com ele outras pessoas seriam punidas....”
¾”Que
outras pessoas?”, perguntou o ancião mudando de cor.
¾”Você,
seus dois filhos Haiarabed e Abô, e aquele outro convidado seu, Vartan.”
O golpe foi
terrível para o velho Khatchô e só não sofreu enfarte, porque seu velho
coração estava calejado de ter visto tantas injustiças e ter sofrido tantas
perseguições.
¾”Qual
é nossa culpa?”, balbuciou ele.
¾”Meu
Deus do céu! Como o Sr. é ingênuo! Nem criança faria essa pergunta!”
respondeu Tomás Efendi com sorriso irônico.”Imaginemos um fulano
absolutamente sadio que visitou pessoas com tuberculose ou cólera. Esse
fulano será considerado contagioso e para não ser internado tentará fugir
para um país vizinho. Inevitavelmente será preso. Será atirado numa masmorra
até morrer em conseqüência de maus-tratos sofridos.”
¾”Então
também seremos jogados numa masmorra?” perguntou o fazendeiro com as feições
estremecidas, sinal de raiva contida.
¾”Sem
dúvida”, retorquiu Tomás Efendi firmemente.
Na verdade,
este último estava ali para pedir a mão de Lalai e expressar todo o amor que
sentia por ela. Por que então essa delonga?
Para quem
conhecia o espírito tortuoso de Tomás Efendi, não seria difícil perceber
tudo ser um jogo, algo para enredar o ancião numa trama inextricável. Queria
induzi-lo a pensar ser ele a salvação deles, e Lalai deveria sacrificar-se
para salvá-los. O coletor de impostos sabia que o ancião não concederia de
bom grado a mão de sua filha, mormente depois das declarações de Vartan
revelando ele ter uma mulher em cada cidade visitada, e isso ele não
conseguira refutar.
Tomás Efendi
percebendo ter ultrapassado o limite, tentou consolá-lo dizendo:
¾”Vão
prender vocês por alguns dias, somente pro forma. Fiz de maneira a não serem
prejudicados em nada.”
O
ancião não respondeu. Estava notando grande diferença na atitude de Tomás
Efendi. Ligeira suspeita começou a surgir em sua mente.
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