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CAPÍTULO XXXI
Na mesma
noite em que Vartan, Hairabed e Abô conversavam a respeito das lastimáveis
condições de vida dos camponeses armênios, Tomás Efendi jantava na casa do
padre Maruk, feliz e alegre, rindo à toa contando piadas.
Esse
padre que atrapalhara os planos de Salman, agora estava triste ao tomar
conhecimento da prisão do moço; não porquê a aldeia perdera um elemento
capaz, mas a prisão de qualquer Armênio o deixava nesse estado. O padre não
era pessoa ruim. E se lutou com todas as forças contra as idéias de Salman,
é por achá-las nocivas à coletividade. Ele também fora simples camponês na
juventude e mal e mal aprendera ler e escrever no mosteiro São João. Não
conseguindo situação aceitável na roça, emigrara para um país vizinho com o
intuito de ganhar bom dinheiro. Não alcançando seu objetivo foi para Van a
fim de abrir um negócio. Lá também fracassou e sem um tostão voltou à terra
natal onde, sem perspectiva, tornou-se padre.
Nesta
noite estava presente também seu genro, Simão, o famoso professor do grupo
escolar da aldeia, que se considerava pessoa extremamente culta (aliás o
povo também era da mesma opinião) e, sobretudo, muito orgulhoso por ser o
genro do padre.
O
assunto era os acontecimentos ocorridos na fazenda do Velho Khatchô,
espalhando o terror em todo o vilarejo. Isso incomodava o padre
sobremaneira.
¾
“O que o Sr. quer padre” disse Tomás Efendi “o burro trabalha e o
cavalo come” . É a lei do Universo. Foi sempre assim e assim sempre
será. O que Deus criou, ninguém poderá mudar. Deus criou o homem e a mulher.
Esta terá que trabalhar enquanto o outro aproveitará. Deus criou o Armênio
para trabalhar e o Turco para aproveitar. Se o trabalhador não existisse o
aproveitador desapareceria, e se não existir o aproveitador, é o trabalhador
que vai desaparecer. Os Turcos convivem conosco com a espada na mão e nós
devemos contribuir com nosso trabalho. Deus presenteou o Turco com a
espada, o Armênio com a enxada. Deus criou o Turco para comandar, o Armênio
para obedecer. E ninguém poderá reverter este estado de coisa.
¾”É
verdade” disse o padre fazendo o sinal da cruz. “Na própria Bíblia, Jesus
Cristo diz que sem a anuência de Deus, nem uma folha se desprenderá da
árvore, nem um cabelo cairá da cabeça de um ser humano. Tudo está em suas
mãos”.
¾”É
a pura verdade” confirmou o genro persignando-se também.
Depois,
teceram comentários a respeito da vida dos camponeses armênios que poderia
se tornar ainda mais dura por causa da guerra. O padre, visando apenas os
próprios interesses, queixou-se dos pesados impostos pagos pelos homens do
campo e também dos Curdos que lhes roubavam o restante. Com isso ele
deixava de receber pelos serviços prestados: batizado, casamento ou enterro.
Os camponeses prometiam pagar-lhe mais tarde, mas, ou por não lhes sobrar
absolutamente nada, ou por mentir, não pagavam. Assim preparara longa lista
de devedores e decidira, a partir de então, não batizar mais, nem casar e
nem enterrar até receber o que lhe deviam: afinal ele também era humano e
queria viver decentemente.
¾"Padre",
disse Tomás Efendi tomando ares de entendido em economia,"O Sr.não conhece o
campo tanto quanto eu. Deus deu uma vida ao camponês e este fará de tudo
para não devolvê-la. Mas quando aparece o Anjo da Morte com sua espada,
prestes a degolá-lo, aí sim ele entregará sua própria alma. Nós temos que
seguir o exemplo do Anjo. O camponês, enquanto não vir aquele bendito
bastão, não entregará o dinheiro. Padre, dê-me a lista de todos aqueles que
lhe devem. Eu o entregarei a um dos meus guardas e ele recolherá o dinheiro
no mesmo dia. Não vou permitir roubar dinheiro".
¾"Que
Deus o abençoe e lhe dê longa vida", respondeu o padre," a relação já esta
pronta".
¾"Dê
uma lida, padre".
O padre tirou do bolso uma folha de papel amassada, suja, amarelada e
ligeiramente rasgada: era a contabilidade. Folha dupla preenchida com letras
grandes, mais ou menos tortas, especificando a quantia devida
individualmente. Aproximou o papel dos olhos e tentou ler, mas não
conseguiu. Não enxergando direito, estendeu o papel ao genro, dizendo:
¾"Pega,
professor Simão, leia você, minha vista está fraca".
O
professor pegou o papel, pigarreou, endireitou-se, coçou a nuca e começou a
ler com voz solene parecendo estar a ler a bula do Papa.
¾"Batizei
a filha de Tcholakh Megô, ficou devendo 5
ghuruch;
uma semana depois a
menina morreu e fui rezar no enterro. Ficou me devendo mais 7 ghuruch.
Casei o filho de Khô, ficou me devendo 10 ghuruch, pagou com
parte da sua colheita ficou devendo somente 3 ghuruch. A esposa de
Panôs estava doente. Chamou-me para rezar e ajudá-la a sarar.
Ficaram me devendo 5 ghuruch. E assim por diante...Parecia mais
exposição de fatos acontecidos durante os últimos anos que relatório de
contabilidade. É assim que, geralmente, padre de vilarejo passava o seu
tempo.
¾"Que
bela escrituração!" cortou Tomás Efendi não agüentando mais ouvir a sucessão
dos devedores. "Dê para mim toda essa documentação e cobrarei tudo moeda por
moeda. Na cidadezinha de N... os moradores estavam atrasando o pagamento da
contribuição para a igreja. O padre daquela paróquia escreveu-me uma carta,
queixando-se. No dia seguinte eu já recolhera todo o dinheiro e o sacerdote
me chamou para dar a benção".
Para o
padre Maruk esse feito do Efendi era tão comum que não hesitou em
entregar-lhe a lista enquanto lhe desejava longa vida. Mas era muito
estranho esse gesto de Tomás Efendi oferecendo seus préstimos com tanta boa
vontade. Ele sempre fora pessoa nada fazendo sem segundas intenções. Devia
ter motivo muito forte para abrir mão dos dez por cento aos quais qualquer
cobrador do Governo tinha direito.
¾"Que
Santo Abrão despeje todas as graças sobre sua cabeça e que tenha muita
saúde", proferiu o padre.
O
professor Simão também tinha uma lista de alunos devedores e fez menção de
entregá-la ao coletor. Mas o padre cochichou ao seu ouvido: "deixa ele
cobrar primeiro os meus, depois você entregará os seus".
Na
casa do padre Maruk viviam, além dele, a sua nora, viúva com dois filhos de
pouca idade. Esta, após a morte do marido não quisera afastar-se do padre,
morando com ele, cuidando da casa. O padre tinha enviuvado há muito. Naquela
noite a nora, após servir o jantar, retirara-se e estava cuidando do filho
de cama ardendo de febre. Sentada ao lado dele, o rosto denotando tristeza e
dor, esfregava as mãozinhas da criança e escutava com aflição a sua
respiração ofegante. Nele reencontrava o rosto tão querido do finado marido.
Era o único consolo de sua vida. Não ouvia nem prestava atenção ao que se
dizia na sala ao lado. Toda atenção estava voltada para a criança.
O
padre, radiante com as promessas de seu convidado, mandou a nora servir o
arak e preparar o
mezê,
prato de frutas secas adocicadas. Apesar do jantar estar terminado, o padre
fez questão de servir uma bebida alcoólica demonstrando assim o quanto
estava honrado com a presença do Efendi.
A nora
estava tão transtornada que o padre repetiu por duas vezes o pedido para que
ela pudesse atinar. Para a bebida não havia problema pois era só encher uma
garrafa com o arak do garrafão. O problema era o mezê. Nada
havia parecido no armário da cozinha e na casa de Armênio, é inconcebível
revelar tal fato ao convidado. Nessas circunstâncias, a nora achou por bem
recorrer aos vizinhos. Lá fora chovia à cântaros e a noite estava escura. A
pobre mulher saiu e se dirigiu à casa do vizinho. O caminho estava todo
enlameado. De repente começou a ouvir pancadas acompanhadas de gritos em
turco ordenando abrir a porta. Do lado de dentro ouviam-se súplicas
afirmando não estarem ali as pessoas procuradas. A nora, atônita, parou e se
perguntou: “Afinal o que os Turcos procuravam naquela hora da
noite na casa de um Armênio?”
Zulô
(era o nome da nora), ouvindo as vociferações, parou apavorada e começou a
tremer de medo. Não sabia se devia seguir ou voltar para casa. Logo em
seguida ouviu uns cochichos:
—"Devagar, Stepanig”.
—"O que
faço, Sará?”
Zulô
logo soube quem eram. Ao ver que precisavam de ajuda, o seu pavor esvaeceu e
sentiu uma energia inesperada tomar conta dela. Já estava a par da desgraça
que tinha se abatido na fazenda do velho Khatchô. Sabia que todas as
mulheres da fazenda tinham ido se esconder nas casa vizinhas. E agora
estavam sendo perseguidas e Zulô sabia com que propósitos. Logo concluiu que
esses Turcos eram alguns dos guardas que ocuparam a fazenda do Velho Khatchô.
Sará e
Stepanig estavam agora bem perto da casa do padre Maruk mas, tais corças
acuadas, cercadas de todos os lados, desorientadas, não sabiam em que
direção correr. A chuva continuava compacta. Os camponeses da vizinhança,
com as portas trancadas, estavam todos dormindo. Já passava da meia-noite.
Naquele
momento, o clarão de um relâmpago iluminou, por um instante, os arredores e
Stepanig vendo a silhueta imprecisa de Zulô e pensando ser um guarda turco
desmaiou nos braços de Sará.
Zulô
aproximou-se e disse:
― “Sou
eu, não tenham medo.”
― “Ah!
Zulô, é você”, murmurou Sará, trêmula, “Pelo amor de Deus, vê se pode nos
esconder em algum lugar, senão vão nos prender e nos levar”.
Zulô
ficou sem saber o que fazer.
Levá-las aonde?
Escondê-las onde? Na casa dela havia convidados em quem não podia se confiar
O padre, por seu turno, não gostava desse tipo de acontecimento e raramente
se propunha a ajudar. Entretanto era preciso fazer alguma coisa. Não podia
deixar as duas coitadas abandonadas a própria sorte. Sabia o que lhes ia
acontecer se caíssem nas mãos dos Turcos. Em contrapartida, sabia também da
enorme responsabilidade assumida ao salvar essas duas criaturas cujo único
pecado era ter nascido mulhere. Por fim a compaixão sobrepujou o medo e
varreu suas hesitações. Diante do iminente perigo criou coragem e vislumbrou
um modo de salvá-las.
—"Vamos!” disse ela puxando a mão de Stepanig; e com a ajuda de Sara,
arrastaram a moça semi-inconsciente.
Tentavam
andar o mais depressa possível, quando ouviram um forte estrondo, logo
abafado pelo fragor da tempestade e o barulho da chuva. Era a porta do
vizinho que os Turcos conseguiram derrubar.
Ao lado
da casa do padre havia um pequeno paiol: lá entraram e Zulô cobriu ambas
com palha.
—"Daqui
a pouco, eu volto” disse Zulô e saiu trancando a porta.
Com o
barulho da chuva o padre e os convidados nada ouviram do que se passava lá
fora. Zulô entrou na casa com a maior naturalidade e aproximando-se do padre
cochichou ao seu ouvido nada ter conseguido com os vizinhos, pois todos
estavam dormindo.
—"Deixa
comigo”, disse o padre levantando-se e dirigindo-se à cozinha,"acharei
alguma coisa bem doce para preparar o mezê” . Tomás Efendi,
aproveitando-se da ausência do padre aproximou-se de Zulô e disse em voz
baixa:
—"Para
que mezê? Você é mais gostosa do que o mezê.”
O
professor Simão, completamente bêbado, nada ouviu. Mas Zulô, sentindo
profundo nojo invadi-la, revidou:
—"Sem
vergonha!”
A mulher
Armênia agüenta calada todos os infortúnios da vida, mas fica profundamente
irritada quando tocam na sua honra.
Zulô
afastou-se e foi sentar na cabeceira da cama onde seu filho estava dormindo
sono agitado.
― “Mãe,
bate no Torôs! Está pegando meus brinquedos!”
Torôs
era o irmão mais velho e talvez o menino estivesse vendo, em sonho, o irmão
roubar seus brinquedos.
― “Olha,
meu amor, seus brinquedos estão aí”, disse a mãe mostrando-lhe uns
carrinhos.
O menino
acordou e com mãos trêmulas pegou num carrinho e começou a brincar. A mãe
vendo-o sorrir ficou radiante. Esqueceu as ofensas de Tomás Efendi. Esqueceu
tudo. Porém surgiu mais um aborrecimento. O padre após mexer e remexer no
armário da cozinha voltou-se para a nora e perguntou se tinha visto o açúcar
que estava ali. Zulô respondeu ter dado o açúcar a um homem que lhe viera
pedir para a esposa muito doente.
― “Devia
dar veneno a esse homem”, esbravejou o padre.”Você sabe muito bem que aquilo
era só para convidados. E agora o que faço?”.
Zulô
nada respondeu e seus olhos se encheram de lágrimas.
O padre
Maruk não era má pessoa. Podia se dizer até ser um bom homem. Mas a bondade
aliada à burrice torna-se, às vezes, maldade. Tinha ficado mais insensível,
mais duro, após sua ordenação. Os padres, os médicos e os carrascos
convivendo permanentemente com mortos não dão muito valor à vida dos outros.
Para o padre, a presença de Tomás Efendi era muito mais importante que a
doença do neto. Queria agradar ao convidado de todas as maneiras, mormente
por este último lhe prometer recolher todo o dinheiro que lhe deviam.
― “Mãe,
por que está chorando? . Veja! Estou bem agora.”
Ao ouvir
a voz do filho doente, a mãe sorriu entre lágrimas e enxugou os olhos.
Naquele instante ela esqueceu tudo. Todos os dissabores desapareceram. Para
a mãe nada existe melhor no mundo do que palavras consoladoras de um filho.
Mas Zulô
não se esquecera de Sara e Stepanig e ela se perguntava apavorada o que
fariam se os Turcos achassem o esconderijo e as levassem. Entretanto, a
bebedeira continuava na sala ao lado e ela esperava com impaciência que
fossem embora para ter com as duas infelizes. Além disso, estava preocupada
com o que estava acontecendo na casa do vizinho.
Pretextando algo a fazer, pediu licença e entrou num cubículo chamado de
“quarto secreto” que servia de despensa. Na parede deste quarto, tinham
praticado uma abertura estreita que mais parecia uma fenda e que dava direto
na casa do vizinho. Essas aberturas eram comuns nas casas dos Armênios e
serviam de canal de comunicação auditivo entre vizinhos. Porém quando as
casas eram geminadas essas fendas eram maiores e permitia passar pequenos
objetos de um lado para o outro. Por exemplo, entregar uma vela acesa quando
o vizinho não tinha fósforo.
Zulô
estava encostada na parede e pela fresta, enxergava somente pequena parte da
sala do vizinho, mas podia ouvir distintamente:
― “Se
vocês não disserem onde elas estão, vamos acabar com vocês! Sabemos que elas
estão aqui. Onde estão? Depressa! Não temos tempo a perder. Se não falarem
vamos levar todas as mulheres, esposas e filhas.”
Eram
esses gritos de ameaça que Zulô ouvia. Mas logo em seguida, ouviu as
lamentações:
― “Por
favor! Não nos matem! Pelo amor de Deus! Nós não sabemos de nada. Podem
levar tudo daqui, mas não nos matem!”
Esta
cena era muito parecida com a de Sodoma, quando facínoras agregados ao
governo da cidade, invadiram a casa de Ló, exigindo a entrega de todos os
convidados. Ló suplicou-lhes não tocar neles, mas que podiam levar seus
filhos em troca. Mas os celerados não quiseram saber de nada. Então o Deus
de Israel, impiedoso e vingador, castigou toda a população da cidade
espalhando uma nuvem sulfurosa e depois ateando fogo. Mas o Deus da Armênia,
apesar de ver todas as atrocidades cometidas pelos Turcos, se manteve
impassível e não os castigou.
O olho
colado ao buraco da parede, Zulô tremia, apavorada, e tentava ver ou ouvir
alguma coisa. De repente ouviu um estrondo e viu Zakô estatelar-se no chão
enquanto a luz se apagava. Zulô não via mais nada mas ouvia gritos
entremeados de gemidos:
― “Por
favor...me largue...não me mate... aonde estão me levando?”
E a
resposta soou feito chicotada:
― “ Cala
a boca!”
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