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CAPÍTULO XXXIII
A noite de
pesadelo chegou terminara. De manhã a casa do velho Khatchô parecia com casa
enlutada devido à morte de familiares.
Primeiro
tiraram Vartan do silo. Estava calmo. Não deixava transparecer agitação, nem
nervosismo tão natural naquela situação. Somente um ligeiro sorriso irônico
de desprezo revelava seus pensamentos :”O que pensam que vão fazer ,
esses idiotas?” . Cinco soldados o acompanhavam para levá-lo até ao
general. Fizeram-no montar num cavalo e passando uma corrente de ferro por
baixo da barriga do animal, acorrentaram suas pernas. Vartan, apesar de
sentir muitas dores, bradou:”Vocês podem me acorrentar, mas no momento
certo, fugirei!” Os guardas não tomaram conhecimento do que dizia, mas por
precaução amarraram as mãos dele nas costas com corda bem grossa cujas
pontas guardas seguravam, um de cada lado. Três guardas estavam atrás deles.
Todos a cavalo.
Apesar do
povo apreciar muito esse tipo de cena , ninguém apareceu nas imediações da
fazenda, pois a casa do velho Khatchô se tornara para eles lugar pestilento.
Não havia
mais mulheres na fazenda; todas tinham se escondido nas casas dos vizinhos.
Hairabed e Abô continuavam presos. Seriam os próximos. A vez deles chegaria
mais tarde. Apenas o ancião saiu da casa para se despedir do Vartan. Os
últimos acontecimentos o tinham abalado profundamente. As injustas
perseguições, a brutal crueldade, o tinham arrasado. Aproximou-se de Vartan,
abraçou-o, mas não conseguiu proferir uma única palavra. Os olhos inundados
pelas lágrimas falavam por si só.
― “Fique
firme, pai, disse Vartan calmamente, quem sai na chuva acaba se molhando.”
Os guardas,
nada entendendo, deram o sinal de partida. O velho Khatchô ficou olhando,
imóvel, até desaparecerem no horizonte. Então, voltou para casa revivendo os
últimos acontecimentos. Por que levaram somente Vartan? E por que não
Hairabed e Abo? E por que o tinham deixado em liberdade, se bem que
vigiado. Qual o motivo de tudo isso? Essas perguntas incomodavam o ancião.
Desconhecia as verdadeiras intenções de Tomás Efendi. Não sabia que se não
concordasse com o pedido de casamento com Lalai, a vingança do funcionário
público seria terrível e a família inteira teria de padecer. Já conseguira
prender Salman e Vartan , denunciando o primeiro e exilando o segundo ,
fazendo-os parecer extremamente perigosos aos olhos do seu adorado Governo
Turco. Em contrapartida considerava inofensivos os filhos do fazendeiro.
Planejara deixá-los muito assustados ao serem acusados de cumplicidade e
então, aparecer como o providencial salvador. Advogaria a causa deles e
assim, como reconhecimento, não lhe recusariam a mão de Lalai. Sua mente
maquiavélica, não previra as terríveis conseqüências da sua trama.
Tomás Efendi
não apareceu aquela manhã. O velho Khatchô desejava ardentemente vê-lo e
ouvi-lo dizer como o estava defendendo e como terminaria tudo isso.
Acreditava piamente nas promessas de Tomás Efendi e lembrava da sua
afirmativa que dizia:”Meu amigo Khatchô! Não deixarei que ninguém toque
num fio de seu cabelo.”
Em lugar do
fiscal foi o padre Maruk quem apareceu, portador da mensagem do pedido da
mão de Lalai. Normalmente, a presença do padre em circunstâncias dolorosas
era consoladora, mas nesta situação a sua aparição causou sensação
desagradável. Tinha certo preconceito contra padres e achava a presença
dele, neste momento, mau augúrio. O padre pegou-o pelo braço com brandura e
o levou para um lado afastado do pátio dizendo-lhe tratar-se de um assunto
muito importante e muito bom para ele. Estas palavras aliviaram um pouco o
sofrimento do ancião.
O padre
iniciou com palavras de consolo e a seguir deu-lhe alguns conselhos
baseando-se em trechos do Evangelho. Lembrou o padecimento de Nosso Senhor
Jesus Cristo e acrescentou que Deus às vezes, para testar a fé de seus
seguidores, submete-os a diversas provações. Nessas horas é preciso ter
muita paciência, não desesperar. Assim ao morrer será merecedor da paz
eterna. Continuou nesse tema durante um bom tempo até poder paulatinamente
abordar o assunto para o qual viera a mando de Tomás Efendi. Para entrar
melhor no assunto, contou uma parábola como fazia normalmente ao celebrar
casamentos:
“O filho do
rei fora caçar. No fim do dia, ao escurecer, perdeu-se na floresta e não
achou mais o caminho de volta. Assim sendo pernoitou na choupana de um
pastor de ovelhas. O príncipe apreciou muito a recepção proporcionada pelo
pastor, porém gostou mais da sua filha, muito linda. No dia seguinte,
voltando ao palácio, disse a seu pai querer casar-se com a filha do pastor.
O rei, chocado, achou ter seu filho perdido a razão. Tentou dia após dia,
convencê-lo do absurdo de sua proposição. Quando percebeu que não ia
conseguir persuadi-lo, mandou um de seus ministros à casa do pastor pedir a
mão da moça em casamento. O ministro voltou e informou ao rei a recusa do
pastor em conceder a mão de sua filha. O rei, estupefato, mandou outro
ministro mais importante que o precedente. Resposta idêntica à primeira. O
rei, espantado ainda mais, enviou então, o vizir o qual também voltou sem
sucesso. Desacorçoado, o rei resolve ir ele mesmo até a choupana do pastor.A
resposta foi a mesma. O pastor negava a mão de sua filha. Desorientado, o
rei convocou reunião de emergência com todos os ministros para ouvir a
opinião deles e conseguir mudar a resposta do pastor. A reunião se
prolongava sem resultado quando o ministro mais idoso, mais experiente,
tomou a palavra e sugeriu mandar à casa do pastor, outro pastor, igual a
ele, argumentando que, com certeza, eles se entenderiam melhor. Assim foi
feito. Escolheram um pastor que no dia seguinte tomou o rumo da casa de seu
colega, sem aparato, sem carruagem, a pé, apenas seu bastão na mão. Foi
muito bem recebido. Puseram a mesa, comeram, beberam, cantaram e no fim da
refeição o enviado do rei perguntou:
―”Por que
você está negando a mão de sua filha para o filho do rei?
―“Ô, meu
amigo! Eu também sou humano. Tenho meu amor-próprio. Por que o rei não me
mandou até agora alguém de bem, como você, para eu concordar em conceder a
mão de minha filha? “
E para
terminar sua parábola o padre concluiu:
― “Eu
também, como você, sou pastor; temos uma missão para cumprir. Eu sou o padre
desta aldeia e você o prefeito. Ambos responsáveis por essa gente. Assim vim
como pastor ao encontro de outro pastor para lhe fazer um pedido.”
―“Que
pedido?” disse o fazendeiro bastante contrariado de ter de escutar contos
infantis, neste momento de angústia e profunda tristeza.
O padre
respondeu que Deus misericordioso ia abrir-lhe as portas da salvação nestas
horas tão difíceis. Pois Tomás Efendi estava pedindo a mão de Lalai,
prometendo livrar o velho Khatchô de todos esses transtornos. Assim deveria
dar graças a Deus existir pessoa igual a Tomás Efendi querendo ajudá-lo em
momento tão penoso. Apesar da história do religioso ser contada com muita
sutileza, não conseguiu alcançar o seu objetivo. Na realidade, em outros
tempos, o velho Khatchô tivera a intenção de casar sua filha com o
funcionário do Governo. Agora as circunstâncias eram outras. Dois de seus
filhos estavam presos, ele próprio sob vigilância, suas noras refugiadas nas
casas dos vizinhos, seus dois melhores amigos Salman e Vartan encarcerados e
sua casa saqueada perante seus olhos. E, é justo agora que o padre vinha
apresentar-lhe a proposta de um homem perverso e maldoso o qual tudo tramara
de antemão. De repente, seus olhos se abriram para a realidade. Percebeu o
imenso abismo cavado por Tomás Efendi embaixo de seus pés. Lembrou-se de
Vartan quando dizia ter o fiscal se casado várias vezes e posteriormente
largado todas elas, em cidades diferentes. Não faria a mesma coisa com Lalai?
Ficou rememorando a maneira ardilosa como ele orquestrara este lamentável
episódio cuja meta era conseguir, de qualquer jeito, a mão de Lalai. Como
Tomás Efendi sabia ter sido Salman preso quando ninguém ouvira falar do
fato? Como sabia que a prisão fora efetuada a noite quando todos os
camponeses estavam dormindo? Fora prevenido por ele da chegada dos guardas.
Fora ele que dissera que uma busca seria feita na sua fazenda a fim de achar
algum indício que pudesse incriminar Salman, como por exemplo aqueles papéis
agora guardados na sua mochila, dentro do porão, e cuja chave estava nas
mãos de Tomás Efendi. Por que não deixou queimar toda aquela papelada?
Preferiu esconder as provas para, no momento certo, prevenir as autoridades
competentes. Pois as provas do crime estavam ali, na fazenda do Velho
Khatchô, Todos esses fatos estavam se desenrolando na memória do ancião.
Então respondeu com amargura ao padre:
―"Padre!
achei esse seu conto bastante inoportuno nestas circunstâncias, pois mesmo
se Tomás Efendi fosse rei de verdade, nunca daria a mão de minha filha a
esse cachorro. Não me interessa o que vai acontecer. Prefiro me arruinar e
que acabem com toda a minha família do que dever a nossa salvação a esse
velhaco que me tapeou do começo ao fim. Eu sei agora...entendo tudo...ele me
enganou. Mas, acabou! nunca mais conseguirá me ludibriar.”
O padre
estava perplexo diante das palavras acerbas e da raiva do fazendeiro, pois
ignorava como tudo isso acontecera. Ademais, o velho Khatchô não via
necessidade de contar detalhadamente o ocorrido, mormente quando atinou com
a indiscrição do padre o qual devia ter contado a Tomás Efendi ser Stepanig
menina. Senão, como o tratante poderia saber? Este mesmo padre a batizara e
somente ele sabia deste segredo.
O padre,
bastante contrariado, deixou a fazenda, matutando: ”Deus tira primeiro o
juízo das pessoas e o dinheiro depois”.
Por seu
lado, Tomás Efendi esperava com impaciência a chegada do padre.
―"Quais são
as novas, padre?”
―"Não sei o
que dizer. O velho está caduco!”
―"Recusou?”
―"Sim.”
―"Eu sabia.
Estava esperando por isso.”
Parecia ter
o céu desabado na cabeça de Tomás Efendi. Sua vista turvou-se, um tremor
incontrolável apoderou-se de seu corpo e por fim estatelou-se no chão. Ficou
assim por algum tempo. De vez em quando levantava o punho e socava a cabeça,
gemendo:”E agora o que faço? o que faço, meu Deus?”
Nada há no
mundo que possa subjugar alguém como a paixão. Os monstros mais afamados da
humanidade, aqueles que derramavam o sangue de uma população inteira, e
espalhavam o terror por onde passavam, se ajoelhavam diante da mulher amada.
Voltavam a ser apenas simples humanos, normais e vulneráveis.
Tomás Efendi
estava realmente apaixonado por Lalai. Todas as perversidades, as maldades
inerentes à sua personalidade desapareciam diante desta paixão. Quando o
diabo descobre o amor, torna-se anjo. Tomás Efendi com todo esse amor vindo
à tona, começou a se arrepender de tudo que fizera.
Nunca, em
toda a sua vida, se apaixonara por alguém. Isso talvez poderia explicar seu
lado maldoso; nada respeitara até então, nem as coisas mais sagradas. Ele
que sabia urdir uma trama maquiavelicamente, pesava minuciosamente os prós e
contras para se enriquecer cada vez mais, e tudo fazia para alcançar a meta
desejada, era ignorante no plano espiritual. A paixão que sentia por Lalai
dardou seu coração empedernido com um raio de luz que iluminou toda sua
mente. Rememorou tudo que realizara até então e ficou apavorado: “O que é
que eu fiz?” murmurava ele arrancando os cabelos.
Até aquele
momento não atinara com a enormidade de seus crimes. Até aquele momento
pensara sempre os fins justificar os meios. Agora estava realizando quanta
maldade causara. No princípio, pretendia aparentar brincar com o velho
Khatchô e, tal como menino, pegaria sua mão aproximando-a do fogo para que
uma fagulha a queimasse e assim, pensava ele, o ancião, assustado, acederia
a tudo que ele queria. De repente a fagulha tinha se transformara em imensa
labareda e causara um incêndio tamanho que ele não conseguira apagar. “O que
eu fiz?” tornou a repetir balbuciando.
Espantado, o
padre olhava a cena pensando estar Tomás Efendi morrendo. Prostrado, de vez
em quando o seu corpo estava sacudido por espasmos e seus lábios
estremeciam. Ficou longo tempo sem se mexer, sofrendo intensamente até o
momento em que abriu os olhos e voltando-se para o padre disse:
―"Tudo o que
o velho Khatchô lhe contou é verdade; não mereço sua filha. Como conceber o
casamento de um criminoso como eu, com um anjo como ela. Amaldiçoe-me padre!
Mereço essa sua maldição” e caiu no mesmo torpor de antes. O padre pensou
ter ele morrido e começou a gritar; “E meu dinheiro? Quem vai me pagar
agora? |