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CAPÍTULO XXXVI
Já passara meia-noite. A lamparina
continuava acesa na pequena cabana curda. A família patriarcal estava
dormindo com toda naturalidade entre quatro paredes. Num canto a velha sogra
roncava. Ao lado estavam deitadas as crianças, as quais nos seus sonhos,
soltavam risadinhas ou pronunciavam frases desconexas. A mãe, esta filha das
montanhas, achava absolutamente normal dormir na presença de forasteiro.
Devido ao calor reinante na cabana, tinha jogado a coberta de lado e seus
magníficos seios apareciam debaixo das tranças de seu cabelo. Dormia qual
cordeirinho. "Agora estou entendendo porque o primeiro casal que
apareceu no mundo vivia pelado" pensou Vartan , "começaram a se
cobrir assim que tiveram a noção do pecado.
Esse povo não sabe o que é pecado e por isso desconhece o significado das
palavras vergonha, respeito e decência. Eis aí um povo na sua primitiva
simplicidade. Quando uma planta cultivada for enxertada em planta selvagem
ela dará sem dúvida resultados notáveis. Por que não deveríamos misturar uma
raça sadia e vigorosa como essa com a raça armênia?".
A não ser Vartan, todos estavam dormindo.
Sentado ao canto da casa, pensamentos tristes o agitavam. Às vezes imaginava
a fuga do povo de Alachguerd, o seu desespero diante da morte que os
perseguia. :"Uma árvore que muda de lugar não pode se adaptar em
outras plagas. De migração em migração, esse povo deteriorou-se lentamente e
boa parte desapareceu ao se misturar com outros povos. E eis aqui uma nova
migração! O que é muito natural pois uma árvore, não solidamente enraizada
não agüentará a fúria da natureza. É só aparecer um furacão e a árvore será
levada de roldão e precipitada no abismo."
Salman
ás vezes aparecia nos seus devaneios com impetuosa e inesgotável oratória
cheia de fé e esperança. Aparecia também Melik-Mansur, o aventureiro
intrépido e rude, que gostava de enfrentar as piores situações. Lembrava do
velho Khatchô, patriarca sem mácula, que cuidava de seu povo com amor e
dedicação e que para amenizar o sofrimento dele, não recuava diante de
qualquer sacrifício. E também de seus filhos, os quais alguns aceitavam,
resignados, o jugo dos poderosos e não sentiam a mínima veleidade em aspirar
a uma vida melhor, enquanto os outros se revoltavam com as injustiças e a
tirania do governo. Todas essas imagens desfilavam diante de seus olhos e
dançavam uma ciranda em sua mente, girando, girando, até se transformar num
vórtice. E de repente a roda parou num ponto bem definido. Este ponto era
Lalai.
A sua atenção voltou para Tomás Efendi.
Sua respiração tornava-se cada vez mais ofegante. Suas mãos tremiam sem
parar. De seus lábios apertados saiam palavras desconexas acompanhadas de
arquejos sibilantes. Vartan, apesar de prestar atenção, nada conseguia
entender. Um terrível conflito interior parecia torturar o moribundo. Mas
pouco a pouco se acalmou, abriu os olhos, levantou a cabeça e, com esforço,
sentou-se na cama. Após lançar um olhar de desespero em seu redor, deixou a
cabeça cair no travesseiro e fechou os olhos.
¾"Ah!
Se tivesse um Armênio aqui", disse com voz débil.
¾"E
tem!" respondeu Vartan aproximando-se.
¾”Dê-me
sua mão!"
Vartan
recuou, enojado.
¾"Onde
estou? Quem me trouxe até aqui? Por que me tiraram do inferno? Lá era tão
bom! Estava flutuando num mar de labaredas. Serpentes de mil e uma cabeças
me envolviam querendo estrangular-me. Estão lá, na montanha, amontoadas. Que
satisfação para um criminoso ser triturado, esmagado, por esses monstros,
não querendo se defender, achando merecer torturas mil."
Abriu novamente os olhos esbugalhados,
olhou para Vartan sem o reconhecer e voltando-se para ele continuou:
¾"No
inferno, fui recebido com as maiores honrarias e estou muito orgulhoso por
isso. Infelizmente não consegui o mesmo aqui na terra. Ninguém conseguiu
igualar-se a mim. Lá encontrei Vassag, Mehrujan, Vesd Sarkis, Caim e outros
criminosos deste gabarito. Eles invejavam a minha posição. Como é bom
flutuar nas labaredas, queimar e tostar sem jamais tornar-se cinzas. É muito
bom que nunca acabe e dure durante toda a eternidade".
Vartan
entendia tudo isso muito bem. Apesar de saber serem devaneios mórbidos,
frutos da imaginação, percebeu um certo sentimento de arrependimento. Diante
desse quadro seu ódio esmoreceu e dirigindo-se para o moribundo, pegou-lhe a
mão e disse:
¾"Acalme-se,
Efendi, o Sr. vai ficar bom. Afinal seus ferimentos não são tão graves
assim."
¾"Esta
voz não me é estranha."
¾"É
a voz de Vartan."
Um tremor irreprimível se apoderou do
corpo do Efendi que retirando sua mão, gritou:
¾
"Afaste-te de mim, poderei contaminar-te! Afasta-te senão vou te envenenar,
Vartan! Eu te conheço muito bem. Você é um bom homem e ao mesmo tempo
impiedoso. Aproveite dessa sua qualidade e mate-me! Assim você me fará um
grande favor. Largue meu corpo no deserto de Alachguerd e deixe-o apodrecer.
Que as feras venham despedaçá-lo. Ou se posso pedir mais, jogue meu corpo
num poço e tampe-o. Acharei o caminho do abismo onde o fogo inextinguível me
tragará para a eternidade. Não! Não!! não mereço ser enterrado na terra
sagrada da Armênia, meu cadáver irá poluí-la."
¾"Acalme-se!
repetiu Vartan. O Sr. não vai morrer. Vou fazer de tudo para que o Sr. fique
bom."
¾"Eu
pensava que poderia morrer logo, e que não tornaria a ver todo o mal que
cometi.Mas não! O Deus da vingança é muito mais poderoso que o pobre mortal.
Me deixou viver mais um pouco para que visse todo o mal que causei, todas as
ruínas, as casas transformadas em cinzas para que eu ressentisse uma
terrível dor na consciência, causador de horríveis tormentos. Fui culpado da
matança em toda essa região mas não consegui matar a mim mesmo.” As suas
últimas palavras foram murmuradas, denotando um imenso sofrimento, um desejo
muito forte de deixar esta vida, de ser enterrado e esquecido para sempre.
Naquele instante a jovem curda acordou.
¾"Parece
que seu doente está passando mal; precisa de alguma coisa?"
¾"Não,
não, está com um pouco de febre, mas logo, logo, vai passar."
A moça aproximou-se do moribundo e
olhando-o de mais perto, perguntou:
¾"Conheço
essa pessoa. Não é Tomás Efendi?"
¾
"É ele."
¾
"Coitado. Vi ele uns dias atrás, vagando pelo bairro, descalço, descabelado,
as calças rasgadas. Quando alguém se aproximava dele, ele gritava, berrava e
se afastava correndo. Diziam ter enlouquecido."
Vartan
se lembrou que também tinha visto Tomás Efendi naquele estado. Mas por que
teria enlouquecido? Teria assim ao se lembrar das maldades que cometera?
¾
"Estão dizendo", continuou a curda," que Tomás Efendi estava apaixonado por
uma moça que fora raptada durante a fuga dos Armênios, por pessoas
desconhecidas."
¾
"Que desconhecidos? Que moça?" gritou Vartan cujo rosto ficou lívido.
¾"Não
sei. É o que dizem."
Vartan
perguntara por puro reflexo, pois sabia de antemão de quem se tratava. E
agora estava desesperado, pois suas últimas ilusões desvaneceram. Sem
dúvida, tinha sido raptada e levada para longe. Seu coração estava
despedaçado e restavam somente cinzas das suas recordações.
Paulatinamente a escuridão da noite se
fora deixando lugar para uma manhã radiosa, ensolarada, como acontece, ás
vezes, após noites de tempestade. Ouvia-se o gorjeio dos passarinhos.
Subitamente a porta se abriu e uma moça irrompeu alegremente dentro da
choupana. Parecia ter vindo de longe pois estava toda molhada e a orla do
vestido enlameada.
¾
"Tchavô!" gritou a dona da casa, abraçando-a.
¾
"Mana!" gritou a moça beijando as lindas bochechas da irmã.
Por um momento Vartan esqueceu da dor que
o afligia, observando esta cena enternecedora. Era moça esbelta com rosto
muito bonito. Possuía os mesmos olhos negros da irmã os quais, neste
momento, faiscavam de alegria. Vartan tentava desesperadamente lembrar de
onde conhecia essa moça cujo nome e rosto pareciam familiares.
¾
"Sabe o que aconteceu?" lançou a linda moça, "Minha patroa me mandou embora
e eu vou poder ficar por muito, muito tempo com minha irmã querida."
Por mais que essas palavras provocassem
uma imensa alegria para a dona da choupana, esta não conseguiu esconder a
sua perplexidade, pois quantas e quantas vezes Tchavô tinha pedido a
permissão de visitar sua irmã e esse pedido fora sistematicamente negado.
¾
"O que aconteceu?"
¾
"Fica calma, nada de ruim."
Tchavô
contou que sua patroa a tinha dispensado temporariamente e que mais tarde a
chamaria de volta. Tinha lhe presenteado com dinheiro, roupas e muitas
outras coisas que trouxera com ela.
¾"Olhe!
Está tudo aqui."
E começou a abrir a trouxa que trouxera.
Mas sua irmã, não satisfeita com as explicações da caçula, tornou a
perguntar:
¾"O
que aconteceu? Por que mandou você embora?"
¾"Tchavô
vai contar tudo mais tarde. A história é longa, muito longa."
Acrescentou estar muito cansada. Andara a
noite toda sob aquela maldita chuva. Agora estava muita fome. Pediu à irmã
um pouco de leite. Esta pegou logo o balde e foi ordenhar a vaca no curral e
encheu, a seguir, um copo de leite que estendeu à irmã.
Foi somente então que Tchavô notou a
presença do forasteiro e seus olhos faiscantes encontraram os olhos
penetrantes de Vartan.
¾"Linda
Tchavô! você era empregada de Khurchit, não é?
¾"É
isso mesmo."
¾"A
esposa de Fattah Bei?"
¾”Ela
mesma”.
Vartan
acabara de descobrir o fio de Ariadne para poder desvendar o mistério de
Tchavô.
¾"O
Bei tinha uma segunda esposa, uma armênia se não me engano?"
¾"Teria,
se não fosse Tchavô que, com a sua diabólica inteligência, a raptasse."
¾"A
armênia?"
¾"Sim,
a armênia. Lalai ou Stepanig: ela tem dois nomes."
O coração de Vartan quase explodiu de
alegria.
¾"E
onde Tchavô a levou?"
¾"Primeiro,
Tchavô a levou perto da patroa que a disfarçou e depois Tchavô a levou até a
fronteira russa."
O rosto de Vartan iluminou-se. Imensa
euforia o invadiu e num gesto espontâneo aproximou-se de Tchavô e a abraçou,
demonstrando assim a sua gratidão.
¾"Pode
beijar a Tchavô, ela a salvou!"
¾"Tchavô
é minha irmã," respondeu Vartan e lhe deu um beijo fraternal.
A irmã mais velha apareceu, trazendo uma
outra tigela de leite, ainda fervendo, coberto com espuma. Tchavô a tomou
das mãos da irmã e bebeu a metade do conteúdo num gole só. Sentiu-se muito
melhor.
¾"Agora
conta" disse a irmã.
Tchavô, com seu linguajar simplório,
começou a narração. Disse que o marido de sua patroa, o Bei Fattah, estava
apaixonado por uma moça armênia que morava em O ....... filha do fazendeiro
Khatchô. A esposa do Bei não aceitava a idéia da moça armênia tornar-se a
concubina do Bei, pois sendo muito bonita poderia conquistar, de vez, o
coração do Bei. Impelida pelo ciúme e a inveja, urdia planos para se livrar
dela. Mas o Bei estava decidido e nada poderia detê-lo, e assim que voltou
da batalha de Bayazid, aprontou-se para ir em busca da amada. Porém Khurchit
se antecipara. Mandou Tchavô e mais dois de seus criados de confiança para a
aldeia de O ....... a fim de resgatá-la e levá-la, mesmo que fosse a força,
para o outro lado da fronteira russa. Tchavô, cumprindo as ordens da patroa
foi-se e achou Lalai e sua cunhada mais velha Sará, escondidas na casa do
padre. Há tempo que Sará sabia das intenções de Fattah Bei. Assim logo que
soube do motivo da vinda de Tchavô, não hesitou um instante para aderir à
idéia e, acompanhada de Lalai deixou mais que depressa o vilarejo. Alguns
dias mais tarde, Tchavô e os dois criados retornaram dizendo ter deixado
Lalai sã e salva do outro lado da fronteira. Khurchit ficou radiante e dava
risada a toa por ter conseguido se livrar de Lalai. Além disso, mandou
Tchavô para perto da irmã até deixar a ira do Bei passar.
A história de Tchavô tinha a tal ponto
chamado a atenção dos ouvintes e particularmente de Vartan, que ninguém
reparou também o moribundo estava prestando atenção. Quando Tchavô terminou
sua narrativa disse:
¾"Agora
posso morrer em paz, Lalai está salva. O burro percebeu o cheiro da cevada ,
mas até a cevada chegar, o burro morreu".
Foram as últimas palavras de Tomás Efendi
antes de dar o último suspiro. As duas irmãs aproximaram-se de Tomás Efendi.
¾"Morreu"
disse Vartan.
¾"Coitado"
disseram elas.
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