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CAPÍTULO
XL
A cadência melodiosa nas badaladas dos sinos
do convento, anunciava o alvorecer. Os monges mais afortunados dormiam a
sono solto em seus confortáveis aposentos enquanto os menos favorecidos se
apressavam para assistir a primeira missa do dia.
Nesta manhã Dom Hovanês acordou bem cedo e
deixando Vartan a dormir, saiu do quarto. Não ia para assistir a missa, mas
sim para visitar os refugiados de Vagharchabed, procurando saber das suas
necessidades. Os primeiros que encontrou estavam em estado tão lastimável
que não teve a coragem de prosseguir. Seu coração sangrava ao presenciar
cenas deveras chocantes. Famílias inteiras deitadas em sujeira imunda,
famintos, enfermos, sem qualquer medicação.
Triste e desesperado tomou o rumo do
convento, decidido a enfrentar os “superiores” e pedir-lhes, com toda
urgência, ajuda substancial para os refugiados. Naquele momento passou uma
carruagem cujo ocupante, reconhecendo o bispo, mandou parar o veículo.
_”Boas novas, Eminência. O governador de
Yerevan mandou formar uma comissão composta de gente de bem. Também virão
ajudas de Tiflis cujos governantes prometeram mandar remédios e dinheiro.”
_ “Que ótimo! Fico feliz em saber que estão
prestes a nos ajudar. Nós, de nossa parte, estamos preparando um
requerimento para também sermos atendidos o mais breve possível”
_”Requerer a quem?”
O bispo apontou o convento. O moço caiu na
gargalhada e disse de lá não poder se esperar nada. O moço era Melik-Mansur.
_”Você me deixou feliz. Agora é minha vez de
retribuir.”
_”Como assim?”
_”Vartan está aqui, mora comigo.”
_”Não me diga. De onde saiu este malandro?”
Não posso acreditar que os mortos possam ressuscitar
_”Vamos!” disse o bispo e os dois se
dirigiram para o convento.
_”Faz tempo que o senhor conhece Vartan?”
_” Faz mais ou menos cinco anos.
Nas nossas plagas tinha a fama de
contrabandista esperto. Muito tempo levou para compreender não ser seu
objetivo o dinheiro. A maioria da vezes trazia fuzis para os camponeses e
nunca cobrava. E quando transportava mercadorias, escondia as armas embaixo
delas. Seu propósito era louvável, mas circunstâncias imprevisíveis deitaram
por terra todos os seus esforços.
_”Encontrei-o umas cinco ou seis vezes em
toda minha vida e posso assegurar-lhe que ninguém, até hoje, me deixou uma
impressão tão boa. Apreciei a sua coragem e maneira implacável de enfrentar
o inimigo, contrastando com seu afeto e fidelidade para com os amigos.”
Ao acordar Vartan percebeu estar sozinho no
quarto. Os raios do sol penetravam pela clarabóia e iluminavam o aposento.
Vartan a abriu, pois o calor era sufocante, e ligeira brisa veio acariciar
seu rosto. Percebia-se algo o incomodar e perturbar deveras. Esperava seu
anfitrião regressar, porém estava demorando muito. Impaciente resolveu sair
um pouco. Respirou fundo e para não ser reconhecido por alguém do convento,
saiu pelos fundos dirigindo-se para o lago. Nas margens, avistou um bispo
muito idoso que ele reconheceu. Era uma pessoa notável na sua época.
_”Bom dia, vovô.”
O convento inteiro o chamava de “vovô”. O
vovô estava sentado embaixo do sol escaldante tentando esquentar o frio em
seus ossos. Era muito parecido com os faquires da Índia, os quais têm o
costume de não tomar banho, de não se pentear e de não cortar as unhas pois
consideram isso ser pecado. Ouvindo a voz do moço, colocou a mão feito
viseira para proteger-se dos raios do sol e levantando a cabeça disse:
_”Tua voz não me é estranho, filho, mas não
enxergo muito bem e não sei quem é você.”
_”Sou Vartan.”
_”Longa vida para você, filho. Vem! Quero te
dar um abraço. Como você cresceu rapaz!”
Abraçaram-se e o ancião continuou:
-“Senta aqui rapaz, bem pertinho. Assim está
bem. Que ra pagão você se tornou, filho. Você lembra quando entrava
furtivamente na minha cela e me roubava uma fruta qualquer? Naquele tempo
você era jovem, muito jovem.”
Dando um profundo suspiro, Vartan respondeu:
_”Foi aqui que aprendia a roubar.”
_”Quem não rouba? Agora todos roubam. A
impunidade impera. Não passa nem dois dias para que algum desgraçado entre
na minha cela para surrupiar meu dinheiro. Guardava-o para a salvação da
minha alma. Como conseguem achá-lo? Nem o diabo o conseguiria. Imagine!
Tinha-o escondido no forro. Os malditos, os malditos...”
Roubar o dinheiro do vovô era ato tão
corriqueiro que não poderia interessar Vartan. Este ancião de quase cem anos
não costumava gastar.Quando conseguia completar certa soma, escondia-a com
cuidado. Mas sempre mão invisível aparecia para se apossar de tudo. A
repetição deste fato fez com que o velho padre adquirisse certa experiência.
A cela do ancião era pontuada de inúmeros buracos e o velho colocava um
pouco de seu dinheiro em cada um deles. Assim não conseguiam roubar a
totalidade do tesouro apesar dele jurar terem levado tudo. Vartan se
lembrava que durante sua infância, o velho padre era considerado o protótipo
do avarento, do miserável. Todo mundo sabia de sua fama na comunidade. O
vovô era considerado um dos monges mais rico do convento, mas enquanto os
outros tinham se enriquecidos por meios escusos, ele ficara rico nada
gastando a não ser o estritamente necessário.
_”O Sr. gosta demais de dinheiro, não é
padre? O que vai fazer com tanto dinheiro?
_”Quando a raposa engole a galinha, dizem
que o lobo é o culpado. Agora, diga-me, quem não gosta de
dinheiro? Aqui mesmo pode-se dizer que é um feirão de dinheiro e todo mundo
quer seu quinhão.”
Com mãos trêmulas procurou no bolso interno
da batina a caixinha de rapé. Pegou-a, abriu-a e constatou estar vazia.
Talvez fosse a centésima vez que abria a desgraçada da caixinha neste mesmo
dia para ver que estava vazia. Mas tentava novamente na absurda esperança
de, por um milagre, encontrar o rapé tão almejado.
_”Maldito seja aquele professor Simão, você o
conheceu, não é? Dei-lhe dinheiro para encher minha caixinha de rapé. Ficou
com a caixinha e o rapé, o desgraçado. Você não teria um pouco de rapé,
filho?”
_”Eu não uso, vovô”
De repente o velho padre avistou uma bituca a
alguns passos dali. Levantou-se e apanhou o toco de cigarro, rasgou o papel
e despejou o restante do tabaco na palma da sua mão e aspirou com prazer.
“_Puxa padre! será que nem um pouco de rapé
lhe dão aqui?”
“_Eh filho! Os tempos mudaram. Cadê a época
do Patriarca Nercês? Naquele tempo existiam bondade e solidariedade. Havia
respeito. Agora tudo virou de cabeça para baixo. Aquele que mente com
habilidade, aquele que sabe enganar com sutileza, esse subirá na vida. Quem
se incomoda com tolos iguais a mim. Agora apareceram novas galinhas que
botam ovos de ferro.”
O velho padre, agora arcebispo era um dos
maiores defensores do Patriarca Nercês. O nome do Católicos despertava nele
ondas de sacros pensamentos. Quando notava a corrupção grassar em toda
parte, quando a tristeza invadia seu coração, lembrava da época do Patriarca
Nercês a qual qualificava de “época de ouro de Etchmiadzin.”
E o ancião, extasiado, relembrou “época de
ouro”. Mostrou o lindo lago, explicava a razão pela qual este vulto
histórico construíra o lago. Apontou uma ruína à beira do lago onde seria
edificada uma fábrica de papel para uso do convento. Agora lá amarram os
burros dos camponeses. Mencionou outra ruína onde seria erigida um fábica de
seda. Em conseqüência tinham plantado amoreiras na metade da floresta. Ao
citar a floresta uma profunda tristeza invadiu o eclesiástico pois sabia que
o Católicos amava essas árvores aasim como pai ama seus próprios filhos.
Quando andava pela floresta, levava sempre tesoura de podar e cortava os
ramos apodrecidos. Conhecia todas as árvores e sabia o quanto cada uma
crescera num ano. E ao constatar o crescimento ficava tão feliz quanto pai
ao ver seus filhos crescerem.
Vartan, percebendo que essa história não ia
acabar tão já, resolveu despedir-se.
O vovô olhando para Vartan disse:
_”Aproxime-se filho.”
Vartan inclinou a cabeça e ouviu o vovô
dizer.
_”Vai embora, filho. Você não está bem vindo
aqui.”
_” Mas ainda ninguém reparou em mim, vovô.”
_”Basta uma só pessoa ver você. Ouvi falar
muito mal de você”.
_”O Sr. é meio surdo, vovô, como ouviu?”
_”O vovô não ouve quando o assunto não lhe
interessa. Caso contrário ouve muito bem.
Vartan caiu na gargalhada e afastou-se, mas o
vovô o chamou de volta:
_”Vartan, se você for à cidade, compre um
pouco de rapé para mim. Você reparou que a minha caixinha estava vazia?”
Daí a pouco, apareceu Melik-Mansur
acompanhado do bispo Hovanés.
_”De que estava falando com vovô”, perguntou
o bispo.
_”Nada importante. É o único que presta neste
convento” respondeu Vartan e voltando-se para Melik-Mansur disse:
_”Gostaria de falar a sós com você; conhece
algum lugar onde poderíamos ir.”
_”Conheço”
Vartan não se preocupava muito com as
palavras de avertência d vovô, mas assim mesmo preferiu afastar-se do
convento. A preocupação dele era Lalai. Era preciso achá-la, descobrir onde
estava. Pediu encarecidamente ao bispo Hovanês para informar-se com os
sacerdotes do convento sobre o paradeiro de Lalai.
_”Soube que até a hora do almoço vão trazer
uma lista com o nome dos refugiados” disse o bispo, “Imediatamente avisarei
você.”
_”O Sr. sabe onde nos encontrar?”
_”Sei”.
_”Então vamos.”
Naquele instante apareceu um pequeno grupo de
gente caminhando lentamente em direção ao cemitério. Alguns habitantes de
Alachguerd carregavam o caixão. Não havia padre para acompanhá-los, havia um
permanentemente no cemitério pois aparecia um caixão a cada minuto. Uma
mulher apoiada em duas outras seguia o funeral. Não chorava e nem aparecia
sinal de tristeza em seu rosto macilento. Estava em estado de torpor, o qual
acontece ao recebermos vários choques terríficos e inesperados do destino.
Percebia-se ser parente próximo do defunto. Na sua saia estavam agarradas
duas crianças que choramingavam. Nenhum orador da cidade a acompanhava a não
ser aquele médico nosso conhecido.
Vartan e Melik_Mansur observaram de longe o
esquife passar, com olhar indiferente pois a todo instante cruzavam com algo
semelhante. Já fazia parte da rotina.
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