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CAPÍTULO XLI
Ao encontrar Melik-Mansur, Vartan esqueceu-se
um pouco da dor pungente que lhe corroia o coração. Além disso, as palavras
do Bispo Hovannés anunciando a chegada de vários eclesiásticos trazendo a
relação de todos os nomes de refugiados, aumentava a esperança de
reencontrar os entes queridos.
A casa onde Melik-Mansur o levava se situava
numa das ruas mais antigas da cidade. Era como todas as outras, pequena e
paupérrima com vasto pátio repleto de árvores frutíferas.
_ ”Parece não estar gostando de estar comigo
a visitar minha casa”, disse Melik-Mansur.
_ ”Não é isso. Minha preocupação é saber o
que aconteceu com Salman. Espero que aqui ninguém possa nos ouvir.”
_ “Ninguém”.
Bateram na porta e uma anciã abriu. Entraram
e o portão foi fechado.
_ “Veja vovó, eu trouxe novo convidado”,
disse Melik Mansur.
_ ”Muito prazer”, disse a velha.
_ ”Rápido vovó, vá buscar uma garrafa de
vinho, estamos morrendo de sede.” E aproximando-se dela acrescentou: “acabo
com você se deixar alguém entrar.”
A velhinha lançou um olhar compenetrado e se
afastou.
Os dois moços adentraram um quarto pequeno,
porém limpo, e mobiliado com gosto meio europeu, meio asiático. Sentaram-se
frente a frente. Logo uma mocinha veio silenciosamente colocar uma garrafa
de vinho na mesa. A cabeça coberta com lenço usualmente usado pelas mulheres
armênias, deixava de fora os olhos pretos e as sobrancelhas arqueadas. Mas o
pouco que se via deixava transparecer a sua beleza.
Melik-Mansur encheu os copos, ofereceu um
deles a Vartan e disse:
_”O que me deixa satisfeito é o fato que
nossos conventos foram construídos nas montanhas, nos vales, nas florestas,
longe das cidades pois nunca vi tanta juventude sem vergonha como aqui em
Vagharchabed. Nunca vi mulheres tão levianas como aqui. Você viu essa moça,
toda recatada e tímida? É amante de um dos monges. Eu pensava que pelo menos
no convento a fé e a devoção predominassem, mas nem lá. Ninguém acredita em
nada. O convento, ninho de escândalos, é visto com certo ceticismo pelo
povo. O protestantismo está avançando. Entretanto, ao passear pela cidade,
você viu lindas casas. Mas se você quiser comprar uma delas, você verá que
quase todas pertencem aos eclesiásticos ou aos seus parentes que outrora
pobres agora tornaram-se ricos graças ao convento. Na verdade, não consigo
conceber como podem gastar tanto dinheiro quando nós, precisamos tanto para
nossa causa. Nossa tesouraria em Constantinopla não tem mais um tostão. O
patriarca não tem dinheiro para prover sua própria despesa. Não vejo nenhuma
luz no fim do túnel para reverter esta situação”.
_ ”Este vinho me parece azedo”,interrompeu
Vartan.
_ ”Você não estava prestando atenção” disse
Melik-Mansur, irritado.
_ “Estava, sim”.
_ “Assim não dá! Estou falando com as
paredes.”
_ “A única coisa que eu sei é que, se uma
nação espera algo de seus eclesiásticos para se salvar, essa nação está
perdida.”
A jovem apareceu novamente com o desjejum
colocado numa bandeja. Retirara o pano de sua cabeça e podia se ver seu belo
rosto realçado pelos lindos lábios róseos.
_” Traz mais uma garrafa de vinho, mas que
seja melhor do que este”, disse Melik-Mansur.
A moça de novo retirou-se silenciosamente.
_ “Estou surpreso você ter escolhido um lugar
destes para morar.”
_” Se você quiser conhecer bem um
eclesiástico, faça amizade com a amante dele”, gracejou Melik-Mansur “, além
disso, um grupo de pessoas costumam se reunir todas as noites aqui e falam
de coisas que me interessam.”
_”Principalmente sobre o convento”,
acrescentou Vartan sarcástico. “ Mas deixemos de lado o convento e falemos
um pouco do que nos interessa. Gostaria de saber que fim levou Salman e os
acontecimentos durante minha ausência. Apesar de o padre Hovannês ter me
informado bastante coisas, não soube me dizer nada sobre o que eu queria
saber.”
Uma nuvem negra passou pelo rosto até então
jovial de Melik-Mansur. Seus lábios começaram a estremecer ao lembrar das
passagens que ele queria tanto esquecer. Levantou o copo que estava a sua
frente e bebeu de talagada.
_”Vou contar”, disse com voz rouca,” vou
contar tudo e você não vai gostar. Salman foi detido à noite e eu soube na
madrugada seguinte. O delator tramou tão bem que ninguém sabia do paradeiro
do preso. Quem me contou foi um rapaz, conhecido meu, que, por acaso, lá se
encontrava quando o levaram. Meu primeiro impulso foi reunir alguns
companheiros e procurando adivinhar o percurso até a prisão, atacá-los. Mas
propositadamente tinham mudado de rumo várias vezes. Éramos mais de vinte,
todos a cavalo, prontos para o que der e vier. Após perguntar para Deus e
todo mundo se tinham visto passar o Salman com os guardas, descobri que o
tinham levado para uma aldeia, onde o Paxá se instalara com toda a força
policial. Soube também que assim que o rapaz chegara, fora estrangulado. Nem
mesmo consegui encontrar o corpo do infeliz. Disseram-me que o que fizeram
com o cadáver, nem animais selvagens fazem. Meu coração encheu-se de ódio ao
saber desse fato. Eu e meus companheiros juramos vingá-lo.
Mais tarde, e você está ao par, prenderam o
velho Khatchô e seus filhos Abô e Hairabed. Não os mataram de imediato, mas
estavam sob estrita vigilância. Queriam arrancar deles o paradeiro do ouro
escondido na fazenda. Mas não agüentaram as torturas infligidas e morreram.
Foi aí que percebi o que poderia acontecer
com os habitantes de O ........ Fui pedir uma audiência ao Ismael Paxá,
Chefe Supremo do Exército em toda aquela região. É um homem bastante
inteligente e eu tinha quase certeza de ser bem atendido. Não lhe escondi
nada. Disse-lhe estar com uma tropa de guerrilheiros e também que o povo
estava armado para assegurar sua sobrevivência. Acrescentei que, de fato,
aquele fanatismo da turba muçulmana poderia acabar com todos os cristãos da
região, se estes não se defendessem. Portanto o Governo Turco deveria estar
atento para não se repetir aqui, os dolorosos acontecimentos ocorridos na
Bulgária, os quais denegriram a imagem do Governo Otomano no mundo inteiro.
Demonstrei com isso ter feito aquilo que o Governo deveria ter feito, isto
é: armar os cristãos para se proteger da sanha dos muçulmanos.
O Paxá, homem manhoso por excelência, acolheu
minhas explanações demonstrando muita simpatia e prometeu fazer tudo ao seu
alcance para nada acontecer aos Armênios e que suas casas seriam
preservadas. Nessa época, as tropas russas estavam batendo em retirada e
dizia-se que os Armênios seguiam os soldados russos, exilando-se. O Paxá
pediu para eu convencer os meus compatriotas para permanecer em suas casas.
Mas assim que virei as costas, mandou sorrateiramente chamar Fatah Bei e
pediu-lhe matar todos os Armênios da aldeia de O ..... e pôr fogo em suas
casas. Este último espalhou o terror em toda aquela região e assim acelerou
a migração dos seus pobres habitantes. Todos os nossos esforços, meus e de
meus companheiros para convencer a população a permanecer em suas casas,
foram em vão. Mesmo se descesse um anjo do céu e lhes dissesse que ficassem,
não obedeceriam.
Esta atitude do Paxá me convenceu
definitivamente que a intenção do Governo Turco era acabar com todos os
cristãos em geral e os Armênios em particular, fazendo o possível e o
impossível para erradicá-los de seu solo pátrio.
Contudo, eu e meus companheiros conseguimos
que algumas famílias ficassem em suas casas. Mas foram poucas.
Ismaïl Paxá, não se conformando com a
retirada dos Armênios junto às tropas russas, resolveu vingar-se. Recomendou
aos curdos se apoderar de tudo que os Armênios possuíam, incendiando a
seguir todas as suas casas. Para os curdos foi uma satisfação, e cumpriram
as ordens à risca com selvageria indescritível.
Porém hoje, estou convencido. Se os Armênios
não tivessem abandonado suas casas, poderiam ter feito frente às investidas
dos curdos. É obvio que o exército turco jamais atacaria um povo pacífico e
obediente, mormente nas regiões de Alachguerd e Bayazid onde havia muitos
jornalistas estrangeiros. Em contrapartida, incitaram secretamente os
curdos e assistiram de camarote os terríveis acontecimentos. Defender-se e
lutar contra os curdos não é tão difícil assim. Vou te contar uma pequena
passagem para você se convencer que minhas conclusões não são tão erradas
assim.
Quando as forças russas foram obrigadas a se
retirar de Bayazid e de Alachguerd,os turcos recuperaram essas regiões.
Imediatamente os curdos acudiram de todas as cidades vizinhas e começaram a
trucidar os armênios, pilhando suas casas e em seguida as incendiando. Nessa
ocasião uma centena de famílias deixando suas casas, fugiu para as
montanhas. Imagine alguns milhares de curdo perseguindo e atacando essa
gente. Sitiados, não somente agüentaram, como nas noites escuras eles mesmos
investiram contra os muçulmanos. Ao relembrar aqueles feitos, meu coração
bate mais forte, emocionado. E não eram somente moços que lutavam. Também os
idosos e mulheres. Hoje estou convencido. O opressor nunca conseguirá
subjugar um povo que não queira se entregar, um povo imbuído da coragem e da
valentia de seus antepassados. O opressor poderá judiar e torturar o povo
oprimido, mas aniquilá-lo, jamais. Quando chegar a hora, esse povo renascerá
mais forte. Nestes dias difíceis, pensar nisso é minha grande consolação”.
O rosto tenso de Vartan desanuviou-se um
pouco. Levantou a cabeça como dissesse “graças a Deus”.
_”E como acabou?”
_”Organizar-se nessas montanhas quase
inacessíveis ainda era possível, se tivéssemos que enfrentar somente os
curdos. Mas vendo a inutilidade de seus esforços o governo turco mandou as
forças regulares. Mesmo contra eles teríamos resistido, se não tivéssemos
que enfrentar inimigo muito mais poderoso: a fome. Como eu disse, nas noites
escuras alguns dos nossos compatriotas conseguiam atravessar o cerco e
correr para as aldeias próximas, quase todas curdas. Mas estes tinham
abandonado suas casas e levado tudo, bens e animais. Havia outras aldeias
habitadas por armênios onde poderíamos conseguir um pouco de comida. Mas
todos haviam fugido ou sido massacrados. O inimigo fechava mais e mais o
cerco. Foi aí que os nossos praticaram um ato ímpar de bravura. Uma noite,
atacando de surpresa conseguiram atravessar as linhas inimigas. Não somente
os moços, mas todos: mulheres, crianças, anciãos”.
_”E depois para onde foram?” perguntou Vartan
com a curiosidade a flor da pele.
_”Após mil e uma peripécias e perigos,
atravessaram a fronteira da Pérsia”.
_”Então você veio da Pérsia?”
_”Sim, da Pérsia.”
_”E agora quais as suas intenções?”
_”Tenho uma meta e você há de convir comigo”,
respondeu Melik_Mansur agora mais sério. “Precisamos preservar, a todo
custo, a vida dos refugiados e fazer o máximo para não morrerem de inanição
ou uma doença qualquer. Tenho fé que os russos atacarão e se apossarão
novamente destas terras. Assim poderemos repatriar todos esses coitados. E’
imprescindível que todos os habitantes de Alachguerd e Bayazid retornem às
suas casas, pois seria desastroso se deixássemos os curdo tomarem conta
dessas regiões fronteiriças”.
_”E você pensa que essas regiões ficariam
permanentemente nas mãos dos Russos”.
_”Mesmo os Russos ganhando a guerra, essas
terras retornarão às mãos dos turcos, sob outras condições que serão
inseridas no tratado de paz. Não haverá mais matanças praticadas pelos
Turcos. Eles se lembrarão da terrível derrota! Além disso vislumbro mais
coisas......
Naquele instante entrou a anciã e
interrompendo Melik_Mansur, disse que um padre, forasteiro, queria vê-los.
Vartan, pensando ser um dos padres mencionado
pelo Bispo Hovanês, mandou entrar.
Adentrou o sacerdote da aldeia de O ...., o
padre Maruk.
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