Na manhã seguinte, o raiar do sol
iluminou Bayazid e seus arrabaldes: um espetáculo horripilante
descortinou-se. Podia-se avaliar agora, em toda sua crueza, o resultado de
três dias e de três noites de massacres ininterruptos perpetrados pelos
bárbaros. A cidade estava mergulhada em silêncio sepulcral, e somente de vez
em quando se ouvia o grasnido dos corvos voando em grupo á procura de carniça.
As ruas estavam desertas. As casas
tinham se desfizeram em cinzas, alguns focos do incêndio ainda permaneciam;
perto de quase todas as moradias havia cadáveres de velhos, moços, mulheres,
e crianças. Cachorros famintos arrastavam os corpos e, rosnando, latindo,
tentavam espantar os corvos. De todas as partes. casas, quintais e lojas
emanava um cheiro fétido.
No meio da cidade morta, erguia-se
a cidadela.
O cerco se fechava. Montes,
colinas, campos, planícies pululavam de gente. O exército e a horda ocupavam
tudo. O exército estava dividido em vários batalhões e, em cada um deles,
notavam-se um incessante vai-e-vem e muito barulho. O fanatismo religioso dos
muçulmanos e a impiedade dos soldados turcos alimentavam a crueldade dos
Bárbaros. O Homem, feito animal, chacinava o seu semelhante.
Após fartarem-se de sangue,
queriam saciar a cobiça. Estendidos no chão, vários Armênios, supostamente
ricos, gemiam sob os duros golpes desferidos. Era preciso que mostrassem o
esconderijo de suas fortunas. Os infelizes choravam e gritavam ter dado tudo e
nada mais possuir. Mas não acreditavam. Para revelar o que queriam saber,
degolavam as crianças sob o olhar horrorizado dos pais. Em local próximo,
Curdos repartiam os proventos da pilhagem que eram carregados no dorso dos
cavalos pelas esposas que cantarolavam, felizes que estavam. Numa praça ao
lado, não longe dali, estavam repartindo as escravas, todas jovens e belas.
Surgiam então muitas discussões durante a divisão, porquanto todos queriam a
mais bonita e chegavam a se ameaçar com a espada.
Enquanto isso, lobos, gatos
selvagens e aves de rapina iniciavam sua refeição matinal, deliciando-se com
os cadáveres. Havia também soldados muçulmanos rezando com devoção, erguendo
para o céu suas mãos salpicadas de sangue, glorificando Alá do Islão. A fumaça
gerada pelo tiroteio e pelo fogo encobria parcialmente tudo isso e impedia os
raios do sol iluminarem todas essas cenas matinais. Os obuses, trovejando,
continuavam a martelar as muralhas do gigantesco forte, mas este, assentado no
alto da colina, permanecia imperturbável diante dos ininterruptos ataques.
Porém toda a atenção da turba
estava concentrada num dos pontos da cidade. Um personagem saltitante, batendo
palmas, cantando com voz de falsete, circulava no meio dos soldados. Era uma
canção curda, sem nexo e que dizia:
O velhinho virou sapo
Virou sapo e pulou no mar
Tirou areia do mar.
A areia virou ouro.
Com o ouro comprou uma
cabra
Uma cabra capenga e
lazarenta
Cabritinho, cabritinho
Meu cabritinho
Porque você é capenga e
feínho ?
Os soldados em volta dele se
cutucavam e diziam : “é o louco” e queriam que ele cantasse de novo. E, de
fato, o homem era louco, ou pelo menos, aparentava todos os sinais de loucura.
O seu traje era dos bufões que acompanham os acrobatas naquelas bandas, com
suas mímicas e cambalhotas divertindo o populacho. Era um moço alto , de rosto
severo. Tinha posto na cabeça uma espécie de chapéu de feltro velho, costurado
de tal maneira, que formava um quadrado em cujas pontas estavam pendurados
quatro sininhos que tilintavam a cada movimento que ele fazia, causando assim
uma cacofonia desagradável. Havia pintado o rosto de vermelho, azul e amarelo.
Roupa de uma peça só, cobria sua nudez da cabeça aos pés. Uma corda esgarçada
lhe servia de cinto. E para completar o quadro, estava descalço.
_ "Vê se você zurra como um
burro", lhe gritavam no ouvido.
O louco enfiava os dedões nas
orelhas, abria uma bocarra e começava a imitar o burro, zurrando com toda a
força de seus pulmões. O povaréu morria de rir e alguns lhe jogavam moedas que
ele apanhava, admirado, virava-as de todos os lados e as atirava no chão
dizendo “quero pão”. Davam-lhe pão e ele enfiava pedaços enormes na boca
engolindo tudo sem mastigar.
_"Você deve saber dançar como os
ursos. Vamos ver se é capaz" diziam alguns.
E ele fazia movimentos desconexos,
caía de quatro, levantava as pernas , plantava bananeira e inventava
palhaçadas.
Um dia inteiro o louco
permaneceu no meio dos soldados, entretendo-os, divertindo-os, gritando
palavrões em Curdo e berrando, dizendo ser preciso acabar com todos os
“guiavur”.
Até a meia-noite ouviu-se o seu berreiro. No dia seguinte, ninguém mais o viu.