CAPÍTULO III
O sol do meio-dia dardejava raios
incandescentes. O calor sufocava. Era a hora do dia em que todo viajante
pausava a procura de sombra acolhedora para descansar. Nesta mesma hora, um
homem caminhava, indo de Bayazid para Alachguerd. O caminho, repleto de
meandros, dificultava muito a ascensão. Mas ele parecia não sentir o menor
cansaço, pelo contrário, andava a passos largos, sem se deter para contemplar a
paisagem, dando a impressão de cada segundo ser muito precioso e ter alguma
tarefa importante a cumprir.
O viajante era moço semelhante ao louco da
véspera. O mesmo camisolão surrado cobria o corpo nu, o mesmo cinto puído
apertava a sua cintura. Faltava somente o ridículo chapéu de sininhos e o rosto
estava limpo. Para proteger-se dos raios solares, tinha confeccionado, com
aquelas imensas folhas das plantas verdejantes, um chapéu, semelhante àquele que
os camponeses usam durante a colheita. Esse chapéu rudimentar preservava-lhe
também a face máscula porém triste, revelando grande desespero aliado a uma
agitação interior. Apesar da estranha indumentária, transmitia todas características de forte personalidade.
De repente, ouviu ao longe ruído parecido com o
relincho de cavalo. Parou e observou a paisagem a sua volta com muita
atenção. O ruído voltou a se manifestar, concluiu vir do vale próximo, após um
momento de reflexão tomou aquela direção. Pouco depois, escalou uma elevação que
se achava no caminho e, com olhos de lince, escrutou cada polegada da
depressão. No meio de uma vegetação luxuriante um cavalo selado pastava.
Prestando mais atenção divisou no meio de uns arbustos, uma lança fincada na
terra e cuja ponta refletia a luz do sol. “Então, pensou ele, há um
homem aqui e está sozinho pois há somente um cavalo pastando.Esse
fulano é Curdo, pois a lança e os arreios do cavalo são tipicamente Curdos, e
está dormindo pois as patas do cavalo estão acorrentadas.” Logo, uma idéia
iluminou sua mente e ele desceu da colina rumo ao pequeno vale, onde corria um
riacho bordado de caniços e escondeu-se no meio deles. Pouco depois começou a
rastejar feito cobra na direção dos arbustos onde a lança estava cravada.
Contorcia corpo com movimentos harmoniosos e avançava célere no meio dos
caniços.Leve brisa agitava a extremidade das plantas e esse frêmito servia
para sobrepor os leves ruídos causados pelo rastejar. A sorte parecia estar
a seu lado.
Ele se deteve a alguns passos da lança e observou
atentamente através dos caniços. De fato, um homem, de quem se via somente uma
parte do corpo, estava deitado embaixo dos arbustos. Sua indumentária revelava
ser Curdo. Sem dúvida tinha feito pausa para proteger-se do forte calor
ambiente. Estava acordado ou dormindo? Difícil dizer pois de costas, seu rosto
estava do lado oposto. Detrás dos arbustos o viajante continua a observar o
Curdo. Estava interessado em saber se estava desperto. Se pudesse ver seu
rosto poderia saber com certeza.
De repente, foi tomado de uma agitação febril e
seus olhos refletiam uma raiva incontrolável. Transtornado, não sabia o que
fazer. Como enfrentar um homem armado dos pés à cabeça, não tendo sequer uma
faca ? Porém algo deveria ser feito; o tempo passava e cada segundo era
precioso. Mas o quê? e como? Enquanto refletia, observou o Curdo levantar a
cabeça e olhar ao seu redor. Vendo seu cavalo pastejar tranqüilamente e tudo
calmo, voltou à posição inicial e fechou os olhos. Agora o nosso viajante
sabia estar o Curdo acordado. Novamente a raiva tomou conta dele. Mas avistando
a lança fincada a poucos metros de onde se encontrava, sua fisionomia mudou
gradativamente e seus olhos começaram a brilhar denotando certa alegria. E, com
agilidade de tigre correu para a lança, arrancou-a do chão e plantando-se diante
do Curdo disse com voz forte :
_"Me dá tuas armas! Já!"
O Curdo, vendo o aspecto ridículo dessa aparição, com esse
simulacro de chapéu, mediu-o de cima para baixo com desprezo e sem se abalar,
estendeu o braço, pegou o revolver e disparou dizendo :
_"Quer as armas ? Toma!"
A bala partiu e roçou o rosto do rapaz.
_ "Seu patife!" gritou o moço, e cravou-lhe a lança no
peito.
Um sangue quente jorrou da ferida; assim mesmo, o Curdo
ergueu-se lentamente e tentou tirar a espada da bainha, mas seu braço não
obedeceu.
_ "Seu cachorro", disse ele moribundo, "por que me matar?
nem te conheço!"
_ "Você já matou muita gente do meu povo; já saqueou a
vontade. Eu aprendi a matar com vocês, e também a saquear. E tenho de andar
muito ainda. Está vendo, não tenho roupa, nem armas, nem cavalo. Preciso de tuas
roupas, tuas armas e desse magnífico cavalo que está pastando aí. Eu sabia que
enquanto vivo, você não daria o que estou precisando. É verdade que você perdeu
sua participação no saque de Bayazid, mas não fique chateado, os teus estão lá,
matando e roubando à vontade".
O Curdo nada ouvia; já estava sem vida, estirado no chão
com os olhos cerrados.
Tudo isso aconteceu em curto espaço de tempo. O moço tirou
a roupa do Curdo, puxou o cadáver até a beira do rio e o escondeu embaixo dos
arbustos; jogou fora os seus trapos, vestiu as roupas do Curdo, pegou as armas
e montando no cavalo seguiu seu caminho.
|