CAPITULO X
A tenda do Bei era dividida em duas partes. A primeira
era a sala de estar, a segunda o harém. Era uma tenda comum, muito simples,
constituída de lona espessa, geralmente costurada por grossos fios pretos
pelas mulheres curdas ou pelas criadas.
O Bei adentrou a barraca de lona, mandou o criado
baixar as cortinas e o dispensou, ficando sozinho. Parecia estar esperando
alguém. Uma luz pálida provinha da lamparina pendurada no teto. Do harém
nada se ouvia, todas deviam estar dormindo.
E de repente, apareceu Grbo, aquele encarregado de
cuidar dos mercadores.
_"Como é? Tratou bem dos convidados?" perguntou o Bei
com um sorriso sardônico.
_"Graças ao bom coração do meu patrão, estão passando
muito bem", respondeu o curdo maliciosamente; "comeram, beberam, abençoaram
o senhor e foram dormir. Tomara que em seus sonhos encontrem novamente as
suas mercadorias”.
_"Os mortos não voltam do inferno", escarneceu o Bei.
"Onde esconderam a muamba?"
_"Em nossa aldeia, na casa do manco Alô".
_ "É coisa boa?"
_"É mais que boa, Bei! Deus nunca nos tinha
proporcionado coisa parecida: ouro, prata, veludo, casimira, enfim tudo que
poderíamos desejar”.
_"Ninguém viu vocês quando entraram na aldeia?"
_"Quem poderia nos ver? Estavam todos nas pastagens e
era noite escura. Havia somente algumas famílias armênias que dormem cedo,
feito galinhas cegas, trancadas nos seus casebres, morrendo de medo. Eles
não põem o nariz para fora".
_"Onde guardaram tudo isso?"
_"Na casa do Alô, já disse. Naquele covil do lobo onde
existem dezenas de buracos. Entupimos um deles com tudo que tinha. Fechamos
todas as portas. Nem satanás conseguiria achar alguma coisa. Aliás trouxe as
duas chaves principais" e entregou-as ao Bei.
_"Alô é um amigo fiel", ponderou o Bei, "não é a
primeira vez que recorremos a ele”.
Para terminar o relatório, Grbô contou detalhadamente
a maneira como atacaram a caravana, como roubaram tudo, os atos de coragem
que cometeram, etc....
_"Bravo, Grbô! Sempre apreciei sua valentia, respondeu
o Bei. Quando esse filho da p... for embora (tratava-se do oficial turco) ,
vou dividir tudo que conseguimos e cada um de vocês vai receber a sua parte
amplamente merecida”.
Grbô aquiesceu e nada respondeu.
_"Mas o que me aborrece", continuou o Bei
preocupado,"é o fato do homem estar aqui. Não queria que isso acontecesse
agora”.
_"Está falando do turco?"
_"Sim, do oficial”.
_"Não se preocupe", disse Grbô rindo, "quando for
embora, nos vamos enchê-lo de presentes; ele sairá daqui alegre e
satisfeito. Mas atrás dele mandarei dois dos nossos, e nos arredores de
Erzerum, eles darão cabo dele e recuperarão nossos presentes. Assim, ele não
poderá contar ao Vali o que aconteceu aqui. O que o senhor acha?"
O Bei não respondeu de imediato. Silencioso, estava
refletindo.
_"É claro que a matança acontecerá longe das nossa
terras, bem perto de Erzerum", insistiu Grbô". E assim o turco não poderá
chegar ao Vali para contar-lhe o que aconteceu aqui. O Vali não poderá
suspeitar de nada".
_"Não precisa chegar a esse ponto", disse o Bei após
alguns minutos de reflexão; "se o Vali vier a saber, sei a maneira de
agradá-lo para que fique quieto”.
Grbô, como se, de repente, lembrasse ter esquecido de
algo, retirou do bolso interno de seu casacão um lindo porta-jóias de prata,
toda trabalhada, envolta num lenço e a entregou ao Bei.
_"Não quis que isso ficasse com o resto da muamba,
pois é uma peça pequena que poderia desaparecer no meio das outras coisas”.
O Bei abriu o porta-jóias. Era dividida em vários
compartimentos. Em cada um deles havia anéis, colares, pulseiras, todas
jóias maravilhosas de ouro cravejados de pedras preciosas.
_"Pertencia a um judeu", continuou Grbô com escárnio.
"Disse que era uma encomenda feita por um príncipe persa que vai casar no
começo do inverno que vem. E foi elaborado por um dos melhores ourives de
Constantinopla. Coitada da noiva! Vai ficar sem as jóias. E o pior é que o
judeu ficou se lamentado o tempo todo pedindo que lhe devolvesse as jóias.
No fim, não agüentei, e mandei calar a boca”.
“Mandar calar a boca”, no linguajar de Grbô
significava “matar”.
_"Agora, você pode ir embora", ordenou o Bei,
"continue tratando bem os nossos convidados. Vamos ver amanhã o que vou
fazer com eles”.
O lugar-tenente anuiu e se retirou.
É claro que Grbô, o lugar-tenente, atacara a caravana
e estava se fazendo de anfitrião. Os bandidos eram os homens do Bei ao qual,
os coitados dos mercadores tinham recorrido.
Após a saída de Grbô, o Bei ficou um bom tempo
sentado, fitando as jóias em sua frente. Ele próprio não entendia porque o
brilho do metal precioso o fascinava tanto: “Vou mandar esse porta-jóias
para o Vali de Erzerum. Não vejo no momento nada de melhor para
presenteá-lo”, matutava ele. De repente, mudando de idéia, uma imagem
adorável apareceu diante de seus olhos: alguém que, para ele, era a coisa
mais linda do mundo: “Não! Não! Esse soberbo colar pode somente ornar seu
lindo pescoço; essas lindas pulseiras, seus
braços tão alvos e roliços e esses magníficos
anéis, seus dedos tão delicados, murmurou ele emocionado.
A magia do amor transformava esse homem
sanguinário, tornando-o mais humano. Os animais selvagens tornam-se mais
ferozes na época do cio, mas o coração do ser humano, ao contrário, amolece.
O Bei não era diferente.
“Essas jóias serão somente para ela; vou
guardá-las com carinho, somente para ela”.
No seu entusiasmo não se deu conta que estas
últimas palavras foram proferidas em voz alta e não reparou a cortina que
separava seus aposentos do harém se levantar e alguém se aproximar dele. A
pessoa parou e se manteve, qual uma estátua, observando-o e tentando dar um
sentido às palavras ardentes do Bei. Era sua esposa, a jovem Khurchit,
célebre pela sua beleza. Naquele momento, somente a Morte poderia estampar
no seu lindo rosto tanta palidez e tanta raiva. Parecia o Anjo do Mal,
prestes a arrancar a alma do homem de costas para ela, quando este,
voltando-se para trás, a viu e estremeceu.
Durante alguns segundos, os dois ficaram
parados, observando-se, dando a impressão que eram dois lutadores calculando
qual seria o golpe a ser desferido.
Diante do Bei, o porta-jóias aberto espalhava o
fulgor dos brilhantes. Então, a esposa dirigiu-se lentamente para o outro
lado da tenda e sentou-se numa das almofadas, após ter deitado um olhar
indiferente nas jóias. Esses objetos tão cobiçados pelas mulheres em geral,
e pelas curdas em particular, que gostavam tanto de se enfeitar feito
crianças, representavam naquele momento para ela nada mais que cacos de
vidro com pontas, as quais ela gostaria de cravar no coração de seu marido.
O Bei percebendo sua raiva, perguntou:
_"Por que está brava? Você terá sua parte,
também!"
_"Não quero nada! É de uma mortalha que eu
preciso!"
A luz esmaecida da lamparina iluminava
fracamente seu rosto pálido lembrando, na sua ira, o retrato do anjo
vingador.
_Que foi Khurchit? Perguntou outra vez o Bei
com uma voz branda. Não me diga que você teve um pesadelo?
_Não tive pesadelo nenhum! O pesadelo está
acontecendo....
O Bei sabia que sua conduta inominável, os
roubos, a matança, não afetavam em nada a sua esposa. Ele sabia e era
convencido que Khurchit, assim como qualquer mulher curda, não deixaria seu
marido em paz se ele parasse de cometer os seus atos criminosos. Então devia
ter alguma outra razão para explicar essa explosão.
Khurchit era a única esposa do Bei. Ele, como
muçulmano, poderia ter mais de uma mulher . Não tinha porquê, primeiro os
curdos são poucos e segundo Khurchit era a única filha do Cheik, homem
poderoso, cuja autoridade se estendia por todas as tribos e que com uma
única palavra podia destituir qualquer Bei da sua chefia. Pretender a uma
segunda esposa além de Khurchit, equivalia a espezinhar a dignidade do Cheik.
Todos esses pensamentos afloraram na mente do Bei ao ver o semblante lívido
e raivoso da sua esposa.
O Bei agora estava concentrado no lado
pragmático da situação e nem passava pela sua cabeça a possibilidade de se
separar da filha do Cheik. Mas quando seus olhos se voltaram novamente para
as jóias, sua imaginação tornou a lembrar o lindo rosto da pessoa a quem
eram destinadas.
Foi aí que ele percebeu o porquê da raiva da
sua esposa. Sentiu então, vindo do mais profundo de seu ser uma raiva
incontrolável própria dos animais selvagens quando no cio.
_"Afinal, o que é que você quer?" gritou ele
encolerizado.
_"Simplesmente quero a separação", disse ela
calmamente.
_"Por quê?"
_"Não tolero que a dignidade de uma filha de
Cheik seja conspurcada por uma reles armênia”.
_"Farei dela sua criada”.
_"Já tenho muitas criadas”.
_"Mas eu a amo!"
_"Pode amá-la quanto quiser, mas esse amor vai
te custar caro”.
_O que você vai fazer?
_"Isso é assunto meu”.
_"Você está me ameaçando? Ficou louca? Posso te
esmagar agora mesmo, como se fosse uma mosca!"
_"Não se mexa! disse a mulher apontando um
pequeno revólver no peito do Bei”.
O Bei estremeceu. Não esperava uma atitude tão
drástica da parte da sua esposa. O bom senso aconselhava-o a permanecer
imóvel, mas sua mão ia imperceptivelmente na direção do seu cinturão onde
estava o punhal.
No mesmo instante ouviu-se, vindo do harém, o
choro de um bebê que acabara de acordar. Foi algo apaziguante que acalmou o
casal. E por fim o amor materno venceu a crise de ciúme: a mãe correu para o
berço de onde provinham os gritos, não sem lançar essas últimas palavras:
_ "Ainda me vingarei"
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