CAPÍTULO XVII
Já estava escuro quando Hairabed e Sará
chegaram em casa. Souberam que Tomás Efendi tinha deixado a fazenda bastante
irritado após sua altercação com Vartan e que o velho Khatchô estava muito
preocupado, temendo uma represália da parte do
coletor de impostos. Era notório Vartan, apesar do gênio impulsivo e
impetuoso, não seria capaz de denegrir alguém. Ele sabia ser o fiscal homem
vil, joguete na mão do governo turco, e se enriquecendo à custa dos seus
compatriotas, sugando-lhes o sangue. Além disso. conhecia seu passado; sabia
ter ele percorrido todas as províncias da Armênia, casando-se de tempo em
tempo em várias cidades e abandonando mais tarde o lar conjugal deixando em
prantos moças inocentes. E agora pretendia agir da mesma maneira com Lalai,
aproveitando-se da ingenuidade do velho Khatchô. Vartan não poderia aceitar
tal procedimento, mormente se tratando da moça que ele amava.
Mas o motivo da retirada de Tomás Efendi não
era somente a disputa com Vartan. Há muito tempo aprendera a engolir sapos
diante do mais forte. Acabara de receber uma mensagem de um portador
ordenando juntar todas as colheitas confiscadas num lugar só, sendo
terminantemente proibido vendê-las, pois o governo estava precisando delas.
Sem dúvida, alguma coisa estranha estava acontecendo: ali, Fattah Bei
distribuía armas aos seus homens, aqui era preciso armazenar grãos de trigo
e cevada.
Quando alguém vinha fazer uma visita, o velho
Khatchô costumava levá-lo diretamente ao “odá” e permanecia ao seu lado até
que fosse embora. Vartan não era considerado “visita”; era filho da casa.
Entretanto quando Tomás Efendi foi embora, apareceu um moço, magro, pálido,
de compleição frágil, deixando transparecer ter passado grande parte de sua
vida nos bancos da escola. Não dava para adivinhar sua profissão nem sua
ocupação. Bastava o velho Khatchó saber que era Armênio e da capital do
Império para tratá-lo com deferência. Não carregava bagagem a não ser uma
velha mochila e à vista de sua indumentária européia, ruça e gasta, podia-se
deduzir ser pobre. Tinha deixado a carroça que o trouxera até a aldeia e
estava à procura de um lugar para passar a noite quando topara com Vartan.
Dizem existir caminhos desconhecidos em nossos corações; pois ao trocar
apenas algumas palavras os dois jovens foram atraídos por uma forte
simpatia. Vartan, tomando o braço do moço o levou à fazenda do Khatchô.
O moço se chamava Mikael Dudukdjian. Assim como quase
todos os descendentes dos Armênios da Turquia, o seu sobrenome se referia à
profissão de seu pai, o qual era um artesão que fabricava o “duduk”.
Não era fácil para o velho Khatchô aceitar a idéia de hospedar esse moço de
sobrenome tão incomum nestas paragens, com cara pálida e doentia, olhos
inquietos e febris, e um laconismo despertando suspeitas irrefreáveis. Mas
Vartan cochichara no ouvido do ancião :” É bom moço. Vai gostar dele quando
o conhecer melhor.”
Ao adentrar o “oda’, o moço se virou para
Vartan e sussurrou: ”são confiáveis?”
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São, respondeu Vartan.
Conforme costume dos camponeses, acendido o
lampião, o jantar foi servido. Nesta noite todos os filhos do ancião estavam
sentados à mesa pois nem Tomás Efendi, ou qualquer outro figurão que pudesse
inibir a presença deles estava presente. O novo amigo de Vartan, tratado com
condescendência, feliz de poder saciar a fome e ter onde passar a noite,
sentou-se também junto com Vartan que era considerado da casa. O jantar
transcorreu triste e silencioso. Vartan e seu convidado trocaram poucas
palavras. O ancião também não se manifestou, assim como seus filhos,
mergulhados cada qual em seus próprio pensamentos.
O velho Khatchô relembrava com apreensão o
rosto zangado de Tomás Efendi. Hairabed, por sua vez, estava preocupado com
o Bei e a situação de Lalai. Rememorava as palavras de sua esposa e pensava
na melhor maneira de solucionar este problema. Os outros filhos pensavam nos
afazeres do dia seguinte. Vartan admirava o lindo rosto e a bela silhueta de
Lalai e o convidado, só Deus sabe em que pensava.
Após ter tirado a mesa, Lalai trouxe, como o
costume exigia, uma pequena bacia e uma ânfora cheia de água. Verteu a água
nas mãos de cada comensal e agradeceram a Deus pelo copioso jantar. A seguir
o velho Khatchô acendeu seu tchibuk enquanto o Sr. Dudukdjian tirava do
bolso um lindo estojo do qual retirava magnífico charuto. Cortou a ponta com
sua unha comprida e afiada e começou a fumar. Isso não condizia com sua
indumentária, mas revelava que outrora tivera uma vida diferente.
Paulatinamente, entabulou-se conversação
generalizado e começaram a falar de Tomás Efendi. Vartan já tinha deixado o
Sr. Dudukdjian a par dos acontecimentos e, assim sendo, ele tinha noção do
que se tratava. O velho Khatchô chamou a atenção de Vartan com muita
delicadeza salientando sua atitude para com o coletor de impostos ter sido,
na sua opinião, no mínimo inconveniente.
─ “Você sabe que para mim não há nenhuma
diferença entre você e meus sete filhos”, acrescentou ele mostrando os seis
sentados e Stepanig, de pé, ao seu lado.
O ancião citava sempre sete filhos, incluindo
Stepanig, ignorando que Vartan, há muito tempo, sabia ser Stepanig uma moça.
─ “Que o sol não ilumine mais as faces dos meus
sete filhos se estou mentindo! Você também é meu filho, minha casa é a sua
casa; você pode vir, sair ou ficar aqui o tempo que quiser. Minha porta
estará sempre aberta para você. Mas você há de saber que nosso país não é
igual aos outros. Aqui, gente como Tomás Efendi são poderosos,
poderosíssimos; eles conseguem tudo o que querem. Por isso, queiramos ou
não, precisamos respeitá-los e silenciar diante de seus argumentos. O que
podemos fazer? Você conhece o provérbio que diz :”Se você não consegue
cortar a mão do bandido, é melhor beijá-la”. É possível que o Efendi não
possa te atingir, porque você não é cidadão desse país, mas certamente
procurará se vingar de nós. Você já ouviu esse outro provérbio turco que diz
:”Ele teve tanto medo do burro que começou a surrar a sela.?”
Essas palavras provocaram a ira do genioso
Vartan que retrucou :
─
“Na minha terra, nos também temos um provérbio que diz: “Se o Turco não
apanhar, não se tornará seu amigo.”Para mim Tomás Efendi não passa de um
Turco e sinto muito de não ter lhe dado uma surra, apesar de eu gozar da
amizade do Sr.”
O ancião fez uma careta. Percebia-se não ter
apreciado a resposta. Em compensação, o rosto de Stepanig iluminou-se com um
largo sorriso, imediatamente notado por Vartan. Sendo o caçula dos irmãos,
ficava de pé servindo todo mundo. Vartan a admirava, extasiado, e dizia para
si mesmo:”Eis aí a única pessoa que me entende, pois só ela tem consciência
da vileza e da torpeza desse homem.
─ “Vocês se deixam espezinhar por essa criatura
infame, de baixo estirpe, desprezível”, continuou Vartan com
veemência.”Vocês aceitam pacificamente todas as suas maldades. Eu entendo
quando o turco ou o curdo perseguem e atormentam o armênio, a ponto de sugar
todas as suas partes vitais até a morte. Entendo e acho até natural, pois há
séculos que se comportam dessa maneira para com os Armênios e continuam a
fazê-lo. Isso se tornou para o turco e o curdo uma necessidade vital sem a
qual mal podem viver. Mas quando é o Armênio que pratica tais atos para com
seus compatriotas, isso se torna insuportável. Eu cuspi todas essas palavras
na cara de Tomás Efendi e ele nem usou uma palavra para se defender e
responder à altura.”
─“Eu sempre quis esculhambar com ele”, disse
Hairabed “mas meu pai me reprimia :”é melhor ficar quieto, dizia ele, ter
cuidado, ter paciência, pois um dia a liberdade virá”. Ter paciência, mas
até quando, Meu Deus!”
─ “Até o dia do São Nunca”, respondeu Vartan
ironicamente. “Mas até lá, pobre de nós, não sobrará mais um só Armênio na
face da terra.”
─ “Ter paciência é viver”, disse o ancião com
um tom doutoral. “Nossos padres, nossos eclesiásticos repetem sempre essas
mesmas frases nos seus sermões. Oxalá, um dia Deus se lembrará de nós,
pobres ovelhas perdidas. Até lá, precisaremos te paciência, meus filhos.
Ter paciência é continuar vivo.”
─ “Ter paciência é querer a morte”, respondeu
Dudukdjian, em silêncio até este momento, ouvindo atentamente os argumentos
de cada um; e ao proferir essas palavras seu rosto tornou-se mais pálido
ainda e seus lábios começaram a tremer.
─ “Ter paciência é morrer”, repetiu ele com
ímpeto.”O único lugar onde o homem tem de ter paciência é no túmulo. Esta
nossa paciência nos leva para um caminho sem retorno. Nossos padres, nossos
eclesiásticos, como disse o Sr., nos aconselham a ter paciência, muita
paciência. É por isso que estamos sendo espezinhados cada vez mais. Á única
coisa que poderá nos livrar dessa lamentável situação é o protesto ou melhor
a revolta. Mas a palavra “paciência” está sempre presente para abafar
qualquer pretensão.
O velho Khatchô não respondeu enquanto Vartan e
Hairabed apertavam a mão do moço. Os outros filhos de Khatchô não entenderam
nada e pensaram :”apareceu mais um louco”.
O ancião levantou-se e ordenou que fizessem a
cama dos convidados, desejou boa noite a todos e se retirou junto com seus
filhos. Uma das noras veio cumprir as ordens do ancião. Os dois jovens
deitaram-se, mas nem um, nem outro conseguia pegar no sono. Por fim,
Dudukdjian pegou a metade do charuto que não tinha fumado e o acendeu.
Vartan aproveitou para tecer um comentário:
─ “Amigo, você fala muito difícil. Para que
esse povo entenda alguma coisa, você deve usar muitos exemplos, muitos
provérbios. Jesus conseguiu muito mais gente com suas parábolas do que com
discursos grandiloqüentes.”
─”É verdade, não sei falar o linguajar dos
camponeses”, respondeu. Dudukdjian e silenciou.
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