CAPÍTULO XIX
No dia seguinte, Vartan levantou muito tarde.
Ficara acordado a maior parte da noite. O seu semblante, ligeiramente
pálido, refletia alegria um tanto venturosa. Notou que seu companheiro,
Dudukdjian, tinha saído e somente sua mochila permanecia ao lado da cama.
Onde teia ido? Vartan, desde o começo, percebera ser aquele moço totalmente
inexperiente e precisar de proteção. Era precavido não perdê-lo de vista.
No casarão, cada qual estava ocupado com seus
afazeres. Os filhos de Khatchó já estavam na roça. O próprio fazendeiro
saira para supervisionar o trabalho de seus filhos. As noras estavam
ocupadas com as prendas domésticas. Todos estavam trabalhando. Somente
Hairabed permanecera no casarão, esperando o momento propício para se
aproximar de Vartan e falar-lhe a respeito da irmã. Exceto Abo, os outros
irmãos tinham completamente esquecido a Lalai e os perigos aos quais estava
exposta, mormente ao do Bei Fattah. Tinham abandonado Lalai a sua própria
sorte e citavam sempre a mesma frase :”Deus sabe o que faz!”. O pai
ignorava tudo. Pensava investigar o passado de Tomás Effendi, para ele, o
genro ideal.
Quando Hairabed adentrou o quarto, Vartan
perguntou:
─ “Você sabe do meu companheiro”?
Percebendo que Vartan se referia a Dudukjian,
Hairabed respondeu:
─ “É um cara bem esquisito esse teu novo amigo:
levantou-se antes do raiar do sol, se vestiu, calçou as botinas, pegou a
bengala e saiu sem se lavar, sem se pentear e sem tomar café.
Perguntei:”Onde vai?” e ele meneou a cabeça, não respondeu e foi embora”.
─”Mas onde ele foi”? perguntou Vartan,
impaciente.
─ “Não sei. Mais tarde o encontrei na aldeia.
Falava com uma moça maltrapilha e descalça :”Não fica bem andar assim,
desse jeito. Você já é uma moça.” ”Meus pais são muito pobres
“ respondeu a moça. Ele tirou uma moeda de ouro do seu bolso e a deu à
coitada. Olha Vartan! Acho que era tudo que ele tinha”.
─ “Talvez,” disse Vartan, pensativo.” Mas e
depois, para onde ele foi”?
─“Depois, ele se aproximou de um grupo de
camponeses que estavam saindo da igreja e se reunindo no adro, falando dos
impostos e taxas que o governo cobrava. Entrou na conversa e disse que o
governo estava abusando, estavam pagando muito além do devido e que tinham
de se preocupar muito mais com seus afazeres. Falou dos meninos e meninas
que estavam privados de escola.Pediu que criassem uma sociedade para ajudar
e melhorar as condições de vida dos camponeses das aldeias sitas ao redor
dessa igreja e também fundar uma “caixa econômica” que emprestaria dinheiro
a todos os necessitados a juro baixíssimo. E falou, falou......”
─”E o que responderam”? perguntou Vartan,
interessado
─ “Caíram na gargalhada e eu vi um deles
cutucar o seu vizinho dizendo :esse cara é louco!
─ “Graças a Deus, não sou só eu o louco”, disse
Vartan sorrindo; “até hoje pensava ser o único louco da paróquia. E daí”?
─ “Aí, um dos camponeses convidou-o para tomar
um aperitivo no bar da esquina. Ele aceitou. O bar estava cheio de gente, a
maioria bêbada. Ele próprio bebeu um cálice de “arak”, e pagou a conta de
todo mundo. E de novo começou a discursar sobre a maneira de poder melhorar
a vida deles e tentou lhes explicar a razão de suas desgraças. Falava com
muito entusiasmo e veemência e foi aí que percebi o poder da oratória. Os
aldeões o escutavam com certo ceticismo. Um deles perguntou:”Qual é sua
função dentro do governo?” “Nenhuma. Não trabalho para o
governo.” “Então”, disse um deles de maneira insolente,“o que
você tem a nos oferecer”?
─ “Infelizmente, é assim mesmo”, disse Vartan
com voz triste. “Para esses simplórios terem consideração por alguém, é
preciso ser prefeito, vereador ou coletor de impostos igual a Tomás Effendi.
Mas continue, Hairabed, estou curioso; quero conhecer o fim da história”.
─ “Aí”, continuou Hairabed, “peguei-o pelo
braço e levei-o à força fora do bar, receando alguma reação mais violenta
por parte dos camponeses. Lá fora, ele me disse :”Nestes lugares, é mais
fácil falar com o povo. Estão meio bêbados e abrem mais facilmente os
seus corações. Seguimos então pela rua principal. No seu ombro estava
pendurado uma sacola de couro repleta de livrinhos. A cada pessoa que ele
via, ele dava um desses livrinhos. Muitos recusavam o presente alegando não
saber ler. Outros, apesar de analfabetos, o aceitavam de bom grado.
Perguntei para um deles o que faria com o livrinho. Ele me respondeu, que
arrancando as folhas, serviriam para embrulhar o rapé”.
Ouvindo estas últimas palavras, Vartan ficou
mais triste ainda. Parecia que algo o consumia lá dentro.
─”Você tem algum desses livrinhos”? perguntou
ele.
─ “Tenho”.
Vartan o abriu e deu uma olhada folheando-o:
─ “Distribuir este tipo de livretes para esse
povo ignorante é burrice. Bom! E depois. O que fizeram”?
─ “Pediu que me separasse dele e tomou o
primeiro caminho que levava a uma outra aldeia que se avistava lá longe.
Durante bom tempo fiquei olhando ele afastar-se. Parecia ter ele marcado um
encontro e que o esperavam. Andava muito depressa e posso até jurar nem ele
saber onde estava indo. Ás vezes até saía do caminho e volta meio
cambaleava”.
Estas últimas palavras foram proferidas com
certa ironia.
─ “Amigo Hairabed vou lhe dizer uma coisa. Pode
ser que nosso amigo não siga em linha reta esses caminhos esburacados da
nossa região. Mas no caminho da vida eu o considero um guia perfeito”.
─ “Eu também penso assim”, respondeu Hairabed
arrependido de ter tentado caçoar do moço.“Parece ser uma pessoa muito
preparada”.
─ “Além disso, é um homem de coração bom, de
sentimentos nobres”.
Agora, Hairabed não estava mais interessado em
continuar falando do forasteiro; estava interessado, isso sim, em falar de
sua irmã. Queria expor tudo que sua esposa Sara tinha lhe contado. Esperava
que Vartan se declarasse visto ser para ele Vartan representava o melhor
partido e pessoa em quem depositava absoluta confiança. Entretanto, Vartan
parecia haver esquecido Lalai. Estava preocupado. Levantou-se.
─ “Onde vai”? perguntou Hairabed.
─ “Vou ver se encontro o Dudugjian. Você o
deixou sozinho. Ele precisa de proteção, é muito inexperiente”.
Ambos saíram do “odá”.
─ “Vamos passar pelo estábulo disse Vartan; faz
alguns dias que não vejo os cavalos”.
Dirigiram-se para o estábulo. No caminho viram
lá longe Lalai lavando o rosto no riacho que atravessava o jardim. Com
certeza acabara de acordar.
─ “Bom dia, Stepanig”, gritou Vartan,
Lalai não respondeu. Simplesmente meneou a
cabeça e um sorriso triste brotou nos seus lábios.
No estábulo estavam os três cavalos de Vartan,
robustos, vigorosos. Um deles lhe servia de montaria e os seus dois criados,
Sakô e Yeghô, dois moços altos e fortes, que nunca se separavam dele,
montavam os dois outros.
─ “Sakô”, disse ele, “hoje você vai ferrar os
cavalos e preparar tudo para a nossa partida. Não vamos demorar muito por
aqui”.
Aproximou-se dos cavalos e acariciou o pelo
lustroso dos animais. Parecia comunicar-se com eles, perguntando-lhes se
estavam descansados da viagem que durara três dias e que agora deveriam
percorrer num dia só. A seguir, mandou selar seu cavalo e montando nele
perguntou ao Hairabed :
─ “Para qual lado foi Dudukjian”?
Hairabed mostrou, estendo o braço, e Vartan
afastou-se rapidamente, tomando aquela direção.
Após sua partida, Hairabed ficou triste e
começou a matutar”Por que Vartan está mandando ferrar os cavalos?
Com certeza vai viajar para bem
longe. Irá embora sem falar nada a respeito de Lalai? E por que ficou tão
transtornado quando lhe contei o acontecido com Dudukjian que ele chamou de
“conduta infantil”?
Ao retornar para casa, Hairabed encontrou sua
esposa Sara carregando enorme balde de leite.
–Ele
nada falou a respeito de Lalai”? perguntou a mulher pondo o balde no chão
para descansar um pouco.
–”Não
falou” respondeu Hairabed com voz tristonha.
–”Eu
sei de tudo”, disse a mulher. “Senta aqui que vou te contar”.
Marido e mulher sentaram-se num dos bancos e
Sara começou a falar dizendo ter Lalai lhe contado tudo. Vartan e ela tinham
se encontrado a noite no jardim quando todos dormiam e Lalai dissera que
Vartan a amava, e iria falar com o pai dela. Se o pai não consentisse em
conceder sua mão, ele a raptaria e a levaria para bem longe.
–”É
por isso que ele mandou ferrar os cavalos”! exclamou Hairabed.
–
“O que que tem se ele raptar a moça? Deixa! Se não for ele, vai ser o Curdo
que vai a levar.
–”Não
sou contra, mas....”
Antigamente, pensou Hairabed, as pessoas teriam matado
suas filhas se soubessem ter ido se encontrar secretamente com um moço sem
ser casada. Mas hoje, muitas coisas mudaram devido às circunstâncias.
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