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CAPÍTULO XXIV
O Governo turco
não escondia esforços para preparativos da guerra. Isso era nitidamente
visível na região de Bagravant, proximidade da fronteira russa. Dos
camponeses, o Governo não somente exigia o imposto devido do ano em curso,
mas também todos os atrasados. Queriam também pagamento de impostos futuros.
Na aldeia, insatisfação e lamentações primavam. Aqueles que não podiam pagar
em dinheiro eram forçados a entregar móveis, gado e até bois os quais eram
vitais para eles, pois serviam para puxar arado ou levar a colheita para
vender em outra aldeia. Eram obrigados ainda a fornecer algumas centenas de
quilos de sementes. Além disso, os fiscais se apoderavam dos mantimentos
encontrados nas casas: cevada, farinha, trigo, queijo, banha, azeite etc...
E a resposta para queixas e lamentações dos camponeses era sempre a mesma:
“Estamos em estado de guerra”.
Toda essa
barafunda, abriu nova perspectiva para Tomás Efendi. Como grande coletor de
impostos do Sultão, tinha a responsabilidade de remeter os impostos
arrecadados às Forças Armadas. Agora, em vez de estar acompanhado de dois
guarda-costas, tinha direito de pedir quantos quisesse.
Esses impostos eram
exigidos somente dos Armênios, pois alegavam que os muçulmanos iriam ser
chamados para combater os inimigos. Além de todas essas desgraças, nas quais
um pobre camponês perdia num só dia dez ou vinte anos de trabalho, havia
algo mais espantoso, mais monstruoso, mais apavorante ameaçando-os. Com
efeito, de repente, brotou nos Muçulmanos um sentimento de raiva, de fúria
assassina para com os cristãos, os ‘'Guiavur’. Em suas conversações
aparecia sempre a palavra tão temida: “Djihad”, a guerra santa.
Membros do Governo, eclesiásticos muçulmanos, atiçavam a turba fanatizada
com discursos inflamados, realçando que essa era uma guerra de religião e
não uma guerra comum.
Esses fatos
deixavam Salman muito preocupado. Pressentia as terríveis conseqüências que
adviririam mais tarde.
_”Vão
acontecer os mesmos terríveis massacres havidos na Bulgária. Precisamos
prevenir nossos camponeses para que possam se defender”, disse Salman.
—
“Isso para mim também cheira
sangue e carnificina”, concordou Vartan.
A seguir, saíram da
residência do Velho Khatchô e dirigiram-se para a casa do padre Maruk a fim
de acertar os últimos detalhes para a construção da escola. Na verdade era
para “dar um agrado” ao padre para não falar mal da escola. Queriam também
lhe dizer que o seu genro Simão seria mestre de obra durante a construção
das escolas e mais tarde lhe dariam um lugar na diretoria.
De repente, uma voz
estridente se fez ouvir e um mascate absolutamente desconhecido apareceu
elogiando as mercadorias oferecidas.
_”Lindas
Senhoritas! Belas Senhoras! Venham ver, que beleza! agulhas de aço, linhas
de todas as cores, dedais de ouro!”
O mascate era um
colosso coberto de farrapos da cabeça aos pés. Enorme arca cheia de
mercadorias se mantinha em equilíbrio nos seus ombros. Mancava fortemente e
toda vez que calcava o pé esquerdo no chão parecia que a arca ia desabar.
Mas ele, munido de grosso bastão nem se preocupava com isso.
Salman, ao ouvir a
voz cavernosa do mercador, parou: parecia ter levado um choque. Porém o
mascate continuou andando pelas ruas estreitas da aldeia, oferecendo sua
mercadoria em voz alta. Salman, ao cruzar com o mascate, trocou olhar com
ele sem dirigir-lhe a palavra; mas essa olhada estava carregada de
mensagens.
Vartan nada notou e
disse dando risada:
_
“Justo agora esse fulano achou bom vir até aqui vender agulhas e carretéis
de linha! Coitado dos camponeses, com que dinheiro vão comprar, se o Governo
lhes tirou tudo?”
_”Meu
caro, a caixa dele é parecida com caixa de mágicos. É dividida em duas
partes: a de cima e a de baixo”, respondeu Salman. “A parte de baixo tem
objetos a serem vendidos agora ou nunca mais.”
Vartan não prestou
atenção à resposta do amigo. Estava preocupado com assunto absolutamente
diferente. Pensava em Lalai. A rápida mudança da situação e o reboliço
causado o deixavam transtornado. Não sabia como resolver o caso de Lalai,
onde deveria escondê-la, o que fazer com ela, pois seria, sem dúvida,
incumbido de uma missão.
_
“Agulhas lindas, linhas coloridas, lindas miçangas!”gritava o mascate sua
voz rouca, ao longe.
Neste justo ínterim
apareceu Tomás Efendi. Ao lado estava seu cavalo, belo animal, todo branco
no qual estava prestes a montar. Estava cercado de vários camponeses aos
quais dava diversas ordens. Ao ver Salman e Vartan, largou o grupo e se
aproximou dos dois jovens com sorriso de velhaco e disse:
_
“Estava ansioso em conhecê-lo, Sr. Düdükjian ( não estava ainda ao par do
verdadeiro nome). Sorte a minha encontrá-lo meu caro conterrâneo. O Sr. sabe
ser eu também de Constantinopla?”
Salman, além de
ficar estupefato, pois era a primeira vez que o encontrava, ficou enojado
pela maneira como estava sendo bajulado. Sem obter resposta, Tomás Efendi
emendou:
_
Permita-me dar-lhe um abraço, atenuando assim a saudade pela minha cidade.
Vartan um pouco
afastado, observava o desenrolar da comédia. Salman não sabia o que
responder e como se comportar em tal situação. Tomás Efendi voltou-se para
Vartan e exclamou:
_
“Vem cá, ó meu amigo louco, você bem sabe que como as crianças, tenho um
coração de ouro. Fico bravo e logo em seguida já esqueci tudo.O Curdo
nunca fala mal do que é seu. E você, bom ou ruim, é meu. Eu esqueci
tudo. Me dê a mão, vai.”
Vartan mal e mal
conseguiu se controlar. Sabendo que essa demonstração de amizade escondia
algo que poderia ser útil, resolveu estender-lhe a mão.
Novamente Tomás
Efendi dirigiu-se a Salman:
_
“Estou muito zangado com o Senhor, Sr. Düdükjian. Já ouviu o provérbio:Para
roubar numa cidade, primeiro fale com o delegado? Tomás Efendi é como
delegado desta região. Se vocês tivessem vindo falar comigo antes de tomar
qualquer decisão, eu teria lhes aconselhado de tal maneira que hoje tudo
estaria resolvido. Ah! Meus filhos, vocês são muito jovens, sem experiência,
não é verdade?
_
“Desculpe, mas ainda não entendi qual é o assunto do que o Sr. está
falando”, respondeu Salman.
Tomás Efendi fingiu
não ter ouvido e voltou-se para os camponeses, gritando:
_
“Seus burros, seus ignorantes, quando vão criar juízo?”
E dirigindo-se
novamente a Salman:
_
“Será que existe alguém neste mundo que queira prejudicar a si próprio?
Existe! São esses aí!” gritou, mostrando os camponeses. “Foi somente hoje
que eu soube da história e, juro, meus cabelos ficaram em pé. Nós fazemos de
tudo para terem uma escola, estudarem, para saberem discernir o bem do mal,
para não permanecerem ignorantes. Mas eles nem ligam. Só sabem levar seus
burros para cá e para lá”.
“Nós fazemos de
tudo” pensou Salman, mas quem são esses “nós” a quem Tomás Efendi
da tanta ênfase?
Mas este último
continuava:
_
“Fiquei tão feliz quando soube das suas intenções! Nosso povo vive nas
trevas. Temos a obrigação moral de tirá-lo dali e levá-lo ao encontro da
luz. E isso, somente a escola consegue. O acontecido há alguns dias não deve
desencorajá-lo. O começo de qualquer empreendimento é difícil. Porém estou
aqui para ajudá-los. Aceitem esta minha modesta colaboração. Hoje tenho
muitos compromissos. Devo ir até a cidade vizinha, mas amanhã de manhã serei
o primeiro a presenciar a reabertura das fundações. Não existe aqui uma
única pessoa a se atrever em desafiar minha pessoa.”
_
“Agradeço muito, Efendi”, disse Salman, “mas sabendo ser o Sr. pessoa tão
ocupada,seria pecado pedir-lhe ajuda.”
_
“Não por isso”, respondeu o coletor de impostos inflando o peito,”estou
sempre a favor de boa causa”.
E estendendo a mão
aos dois jovens, afastou-se.
_”Sem vergonha!
Hipócrita!” disse Vartan.
_”A gente poderia
tirar algum proveito dele”, respondeu Salman.
_”Sinceramente,
você acredita nesse cara?Vai ver o que ele está tramando contra nós!”.
Os dois jovens já
tinham chegado à residência do Padre Maruk e bateram na porta.
_”Lindas
agulhas...linhas coloridas...bonitas miçangas...”
Era novamente a voz
do mascate manco passando na rua vizinha.
_”Vartan”,disse
Salman, “Vamos deixar esta visita ao padre para mais tarde”.
_”Por
que?”perguntou Vartan.
_”Preciso comprar
algo do mascate.”
Vartan caiu na
gargalhada ao ouvir Salman querer comprar algum desses artigos.
_”Tem mais uma
coisa”, continuou Salman, tão sério que Vartan não duvidou da importância
das suas intenções.
Pegou no braço do
companheiro e se afastaram da casa do padre. Pegaram rua paralela, avistaram
ao longe o mascate e começaram a segui-lo. Grupo de meninos corria junto ao
manco e gritava:
_”Me dá um
docinho....me dá um docinho....”
O mascate tirou da
mochila vários docinhos e os distribuiu.
_”Já vi esse manco
uma semana atrás lá perto de Van”, disse um camponês ao seu vizinho.
_”Esses mascates
vão a todos lugares”, respondeu o vizinho. “Reparou no rosto dele? É
horrível!”Não gostaria de encontrá-lo em noite escura; parece o próprio
Diabo”.
O manco continuava
andando pelas ruas da aldeia e às vezes era chamado nesta ou naquela casa
onde ficava um bom tempo. Outras vezes as mulheres pediam para abrir a arca
e ficavam horas a escolher esse ou aquele objeto. Assim passou o dia e
somente a noite conseguiu completar seu roteiro e sair da aldeia. Logo
desviou da estrada que o levaria ao próximo lugarejo e, por uma senda, rumou
para uma ravina causada pelas fortes chuvas da primavera e agora seca. A
maneira de andar do mascate se modificara. Andava devagar devido ao peso da
arca, e não mais mancava. Chegando na vala, pousou a arca e botando dois
dedos da mão esquerda na boca (os outros estavam cortados) deu vários
assobios. Minutos depois apareceram Vartan e Salman. Este, deu forte e longo
abraço no mascate:
_”Vamos sentar”,
disse Salman. ”Conta! Você vendeu muito?”
_”Muito mesmo. Fiz
toda a região de Vasporagan e a inundei com minhas mercadorias.”
_”Naturalmente sem
cobrar nada.”
_”Naturalmente”
Vartan escutava o
diálogo, pasmo, nada entendendo!.
_”Agora entenda
porque eu disse ser a arca como a dos mágicos. É por ser dividida em duas
partes.”
_”Estou curioso
para saber o que havia na parte de baixo”, exclamou Vartan.
_” Fuzis!”
Aí, Vartan soube
quem era o mascate, pois Salman havia lhe contado a respeito.
Era Melik-Mansur.
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