HAIG e PEL
Vários
séculos antes da nossa era, na região montanhosa que mais tarde iam chamar
de Armênia, vivia Haig.
Haig descendia da raça dos
gigantes que, desde sempre, povoavam essa parte do mundo.
Tinha sido eleito chefe da
sua tribo cujas mulheres, belas, esbeltas, distintas e inteligentes sentiam
orgulho de seus homens, altos, fortes, generosos e valentes. Dentre eles,
Haig era o mais forte e o mais valente.
Tinha duas paixões na
vida: sua esposa Archaluis (Aurora em português) e a caça. Porém, o que mais
prezava, mais do que sua própria vida, era a liberdade.
A liberdade e a caça não
são incompatíveis, muito pelo contrário.
Assim, Haig era um homem
feliz, cercado de sua esposa e dos membros da sua família, que somavam
trezentas pessoas.
De manhã cedo os homens
iam caçar e as mulheres cuidavam das crianças e das refeições. À noite toda
a tribo se reunia ao redor de uma fogueira. As crianças sentavam em volta
dos anciãos para escutar, boquiabertos, contos maravilhosos. As mulheres e
homens cantavam e dançavam.
Haig e os membros da
família, que viviam da caça, não eram ricos e no inverno, quando a caça
escasseava, passavam dias difíceis. Mas isso não afetava em nada a alegria e
a solidariedade, pois sabiam que em contrapartida eles se beneficiavam de
uma sina extraordinária: a de viver em paz e livres.
Mais ao sul, num rico e
fértil vale, vivia um outro chefe chamado Pel, que também era alto e forte,
mas a semelhança parava aí, o orgulho, a vaidade, a sede de dominar o
atormentavam.
Prometera a si mesmo que
seria o único chefe de todas as tribos. Todos os outros chefes seriam seus
vassalos. Como era rico e tinha à sua disposição muitos soldados, pensava
que seria fácil concretizar seu sonho.
Sendo Haig seu vizinho
mais próximo, Pel decidiu começar por ele. Mandou uns emissários portadores
da seguinte mensagem: “Comenta-se que você é um homem inteligente, por isso,
não entendo até hoje por que teima em viver nessas tuas montanhas áridas das
quais não tirará nenhum proveito. Você vive no dia a dia graças à caça que
pode não ser proveitosa em todas as estações. Por que impor essas provações
aos membros da tua tribo? Desça dessas montanhas ingratas, aceita minha
suserania e você viverá feliz até o fim da tua vida.”
Haig era um homem simples
e sem malícia, mas não era bobo. Aliás, não precisava ser tão inteligente
assim para entender o conteúdo da mensagem: era uma vida próspera em troca
da liberdade.
Haig não hesitou nem um
segundo e disse aos emissários:
_ “Digam a Pel que
agradeço sua solicitude. Antes viver livre do que aceitar ser um escravo
rico.”
Essa resposta deixou Pel
enfurecido. Não concebia que alguém pudesse lhe resistir. Quem pensa que é,
esse Haig? Como ousa responder com tanta insolência?
Já que o dinheiro não
conseguira persuadi-lo, Pel decidiu utilizar a força.
Então, reunindo seus
guerreiros, marchou para se encontrar com Haig.
Este, estava caçando
quando o preveniram da chegada de Pel com seus guerreiros. Imediatamente,
Haig reuniu também os seus, que eram muito menos. Mas não sentiu a
necessidade de explicar-lhes por que deveriam lutar até morrer. Eles também
sabiam, que se por infelicidade perdessem a liberdade, a vida não teria
mais sentido.
O choque entre os dois
exércitos foi terrível.
Os soldados de Haig
lutavam por um ideal mais precioso que a própria vida. Mas os homens de Pel
eram mais numerosos e mais bem equipados.
Mortos e feridos
acumulavam-se a cada instante.
De repente Haig e Pel
depararam-se face a face. Há tempo que estavam se procurando. Pel, com um
sorriso sardônico, precipitou-se sobre Haig, sabendo que se matasse seu
adversário, os outros largariam suas armas. Mas Haig estava atento.
“Os soldados de Pel são
uns mercenários, lutam por dinheiro. Se seu chefe morrer, abandonarão a luta
e fugirão. Preciso eliminar Pel de qualquer jeito.”
O combate dos dois chefes
foi longo e penoso, pois os dois eram dotados de uma força prodigiosa.
A superioridade de Haig
repousava no ideal de combater por uma causa justa.
De repente, Pel levou um
tremendo golpe e caiu. Haig levantou a espada e quando ia desferir o golpe
fatal, Pel, aterrorizado pela determinação que leu nos olhos daquele que ia
matá-lo, pulou e se pôs a correr.
Tão rápido quanto Pel,
Haig jogou sua espada no chão, pegou seu arco, uma flecha e esperou que Pel,
tranqüilizado pela distância que os separava, voltasse para trás.
Foi exatamente esse
momento que Haig escolheu para apontar o coração do fujão. A flecha foi
lançada e Pel desabou.
Seus soldados largaram as
armas e fugiram.
Haig ordenou para que não
perseguissem os fugitivos, esses mercenários não voltariam tão logo...
No local desta batalha,
Haig mandou construir uma cidade que ele chamou de Haigachen.[1]
O vale onde foram
enterrados os heróis daquele dia memorável foi batizado Hayots Tsor[2],
nome que designou, mais tarde, a região inteira.
Centenas e centenas de
habitantes de outras províncias, desejosos de viver sob a proteção de um
chefe como Haig, convergiram para a cidade. Assim, a pequena tribo de
outrora se multiplicou e após algumas gerações tomou as proporções de uma
nação, o país de HAIASDAN, cujos habitantes chamavam-se Hai, homenageando o
seu ilustre ancestral.
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