A IGREJA DOS INOCENTES
Tamerlão,
o conquistador manco, tornou-se o dono da metade do mundo. Sua sede de poder
e glória era infinita. Nada parava o avanço das suas hordas. Após sua
passagem sobravam somente ruínas e desolação.
Ao chegar na Armênia, Tamerlão e seu bando a
invadiram e a conquistaram num piscar de olho. Para não perder o costume
massacraram uma boa parte da população. Quanto àqueles que poderiam ser de
alguma utilidade, levaram-nos a força, acorrentados.
Tamerlão estava satisfeito. Mais um país
conquistado! “E vamos em frente para mais vitórias” dizia ele.
Mas até os conquistadores precisam de
repouso. Mandou os soldados acamparem às margens do lago Sevan.
Não longe dali, numa igreja de paredes
cinzentas, um velho monge, o padre Ohân, rezava ajoelhado, horrorizado pela
crueldade dos homens para com outros homens. Sua alma inocente revoltava-se
contra a sorte reservada para seu país e para seus conterrâneos.
Perturbado na sua meditação pelo alarido dos
conquistadores, arriscou uma olhadela para fora. A vizinhança dos algozes de
seu povo num primeiro instante o transtornou e depois tornou-se
insuportável. Saiu da igreja e dirigiu-se para o lago. Foi aí que o milagre
aconteceu. Ereto, o tanto quanto a idade permitia, as cãs e a barba ao
vento, começou a andar na superfície do lago, com as costas voltadas aos
vizinhos indesejáveis.
Tamerlão, testemunho da cena, não acreditava
no que estava vendo.
_ “Não é possível, devo estar sonhando”.
Mas seus tenentes afirmaram ter visto a mesma
coisa. Era impossível todos estarem enxergando igual.
Levado por um sentimento inexplicável,
Tamerlão gritou:
_ “Volte, ancião! Volte, homem de Deus!”.
O padre Ohân ouviu a chamada. Calmamente deu
meia-volta e andando sempre nas ondas, parou diante do conquistador manco.
_ “Diga-me o que você mais deseja. Qualquer
coisa, santo homem!” disse Tamerlão. “Você quer ouro, riquezas, uma vida
faustuosa? Fala! Te darei o que está me pedindo.”
_ “Não preciso nem de ouro nem de riquezas.
Conceda-me a liberdade do meu povo. Deixa-os irem para onde bem entenderem!
Que vivam como homens livres neste vasto mundo! Será que não há bastante
espaço na terra para que os homens possam viver em paz?”
_ “Então você quer a liberdade do seu povo?
Muito bem! Que seja! Concedo a liberdade para todos aqueles que puderem
entrar na igreja até que ela fique lotada. E agora, vai! E reze por mim!”
Assim falou Tamerlão e ordenou que parte dos
prisioneiros fosse levada à igreja.
Estes, em fila, entraram na igreja um após
outro. Entraram cem, duzentos, mil, dois mil. E parecia que a igreja poderia
conter mais gente ainda.
Tamerlão, boquiaberto, não entendia nada ,
mas ordenou:
_ “Tragam mais!”
Mais um grande número entrou: centenas,
milhares, até não sobrar mais ninguém.
Tamerlão, pasmo, andava de um lado para
outro.
_ “Vão rápido ver o que está acontecendo. Que
milagre é esse?” gritou ele.
Logo os generais do feroz conquistador
penetraram na igreja e se depararam com o padre Ohân, ajoelhado diante do
altar, a barba branca banhada de lágrimas. Aparentava ser um homem feliz.
Deus tinha atendido suas preces. Os prisioneiros que tinham entrado na
igreja tinham se transformado em pombas brancas e voado através dos vitrais
quebrados, livres e felizes, na direção de suas montanhas natais.
Na igreja, onde jorrava a luz, restava
somente o santo homem ajoelhado diante do altar.
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