ARÂ O BELO E SEMÍRAMIS
Certo dia, Semirámis, rainha da
Assíria, acordou com um sorriso nos lábios, porém lastimando ter de abrir os
olhos: o despertar interrompera um sonho agradável.
Encontrava-se sozinha num
jardim feérico, longe de seus cortesões e suas intrigas. Passeava
maravilhada, entre flores multicolores, quando uma força misteriosa a
empurrou para o bosque. Foi lá que se deparou com um belo moço, garboso,
forte, com olhar cativante. Seu coração disparou.
_ “Quem é você?” perguntou
ela.
_ “Sou Arâ, príncipe da
Armênia”.
_ “Gostei de você, vem
comigo” propôs Semíramis estendendo o braço. Arâ ia responder quando
Semíramis acordou.
Naquela manhã a rainha
espreguiçou-se na maciez dos seus lençóis. Os assuntos de Estado podiam
esperar. Mandou trazer um espelho e examinou minuciosamente seu rosto. Era
jovem, os cabelos pretos, compridos e ondulados realçavam seus magníficos
ombros. Seus olhos tinham um brilho particular. Um nariz reto, lábios
vermelhos em forma de coração, um pescoço de cisne e um corpo de deusa
completavam o quadro. Sim! era bela.
Assim mimada pela vida e
pela natureza, acabou se tornando uma pessoa autoritária, sobretudo após a
morte do rei, seu marido que lhe entregara o trono da toda poderosa Assíria.
Exigia sempre ser obedecida imediatamente, seja se tratando de assuntos do
reino, seja do coração.
Portanto nessa manhã, não
sentia a menor vontade de pensar em problemas políticos. Estava ainda
encantada com seu sonho e com olhar de Arâ. Estava ansiosa em saber se Arâ
aceitaria um convite seu.
Mandou chamar o escriba e
pediu que redigisse uma carta destinada a esse príncipe tão distante.
Arâ era um homem feliz.
Belo, forte, generoso, o povo o adorava e o apelidara de Arâ, o Belo. Era
casado com uma mulher encantadora a qual amava profundamente e da qual era
plenamente correspondido: formavam um casal feliz.
Qual foi seu espanto e sua
indignação ao receber a carta de Semíramis e ao perceber suas segundas
intenções.
_ “Venha me fazer
companhia” dizia a carta “você não se arrependerá. Eu o tornarei feliz e o
presentearei com lindos mimos.”
Após ter se acalmado, Arâ
leu a carta novamente e chegou à conclusão que essa Semirámis, cuja
inteligência e beleza eram cantadas em versos e prosa, não era tão virtuosa
assim. Chamou sua esposa, a doce Nevart, para que lhe desse um conselho.
_ “É preciso achar um meio
de não ceder aos caprichos de Semirámis, sem que, todavia, se sinta
ofendida. É inútil ferir o amor-próprio da rainha de um país tão poderoso.”
Então, Arâ respondeu com
termos educados, porém declinando o insensato convite.
Ao receber a resposta,
Semíramis ficou furiosa.
Arâ recusara seu convite!
Fazia de conta não entender seu apelo apaixonado. E ainda por cima, zombava
dela ao prometer apresentar-lhe suas homenagens numa outra ocasião,
acompanhado da sua esposa Nevart. Tal insolência merecia castigo!
Semirámis chamou os
generais de seu exército e ordenou que organizassem uma expedição a fim de
capturar Arâ e trazê-lo acorrentado.
_ “Sobretudo, não esqueçam
que o quero vivo” repetiu ela por várias vezes. “E agora, podem ir!”
O exército assírio começou
a sua marcha em direção à Armênia.
Arâ, na sua ingenuidade
não poderia imaginar que a ira de uma rainha pudesse atingir tal proporção.
Agora a sorte estava lançada. O exército assírio aproximava-se. Não podia
esperar de braços cruzados. Então convocou o exército e se preparou para a
batalha.
Do lado assírio, cada
soldado tinha sido avisado quer não poderiam matar Arâ e nem feri-lo.
Naturalmente, Arâ desconhecia essas recomendações e, à frente de seus
soldados, lançou-se sobre o inimigo.
A batalha sangrenta durava
há várias horas, quando uma lança perdida traspassou o corpo de Arâ que caiu
inanimado.
Os generais assírios,
apavorados com a idéia de contar a verdade à rainha, ordenaram a retirada.
O campo de batalha foi
abandonado e deixado com seus mortos e feridos.
Disfarçada em homem,
Semíramis assistira as peripécias da batalha à revelia de seus generais.
Vira com seus próprios olhos o tombo do seu amado. Precipitou-se sobre o
cadáver e suas lamentações foram tão violentas que invadiram a planície
inteira.
Os generais assírios,
reconhecendo a voz da rainha, reuniram-se em volta dela e, cabisbaixos,
esperavam seu veredicto.
De repente, ela se calou.
Tivera uma idéia. Seu olhar começou a brilhar, cheio de esperança. Ordenou
seus homens a transportar o corpo inerte de Arâ para a muralha da fortaleza
próxima.
Na religião pagã, existem
deuses específicos para cada caso. Naqueles tempos, os pagãos acreditavam
que se o corpo de um bravo guerreiro morto num campo de batalha fosse
exposto num lugar elevado, os deuses Heraléz viriam de noite e o reanimariam
lambendo suas feridas.
O que se contou
posteriormente a respeito desse acontecimento é bastante contraditório.
Uns afirmaram que os
deuses Heraléz não fizeram jus a sua reputação. Com efeito, Arâ permaneceu
inanimado e acabaram enterrando o corpo. Outros pretendem, ao contrário, que
os Heraléz tiveram pena da dor de Semíramis e, deslumbrados pela beleza
viril de Arâ, decidiram cumprir a súplica dela. Lamberam as feridas durante
três noites consecutivas e reanimaram Arâ, não sem ter antes arrancado dela
a promessa solene de renunciar a ele.
Isso aconteceu na região
de Van
Os habitantes dessa região
contam até hoje a história de Arâ e mostram aos visitantes as ruínas da
fortaleza, nos muros do qual tinha sido exposto o corpo desse príncipe.
Sua lealdade para com sua
esposa tornou-se para os Armênios, o símbolo da fidelidade conjugal
Voltar
|