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CONTOS ARMÊNIOS
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Fronteiras se modificam, dinastias
se apagam, governos desaparecem, mas os contos, os mitos e as lendas permanecem,
pois não se identificam com o irreal, como estaríamos propensos a pensar, pelo
contrário, ensinam-nos o que há de mais autêntico: o símbolo.
Demonstram-nos que os valores do
passado não são obsoletos; que o patrimônio espiritual herdado dos nossos
antepassados pode ser transformado numa atualidade vivaz.
Cultura oral ligada ao ambiente
sagrado ou ao ambiente profano, fielmente divulgada pelos trovadores, reflete a
alma do povo que os criou.
Cultura escrita, lida e difundida,
os contos, os mitos e as lendas da velha terra da Armênia, emergem pouco a pouco
das profundezas dos séculos para iluminando além das fronteiras, os corações dos
homens que souberam conservar sua alma de criança.
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A GOTA DE MEL |
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Hovanés Tumanian, um dos
maiores poetas da língua armênia de todos os tempos, nasceu em 1869 no
vilarejo Dsegh, província de Lori. Era filho do padre da aldeia. Aos dez
anos mandaram-no estudar na capital da Geórgia, hoje denominado Tblissi.
Após alguns anos largou os estudos e tornou-se autodidata. Em 1886 redigiu,
em versos, o seu primeiro conto, o "Cão e o Gato". Em 1890, já era
considerado um dos maiores poetas da Armênia. Tumanian foi uma pessoa muito
ativa. Enquanto participava de várias revistas literárias como, por exemplo,
a revista infantil "As Espigas", interessava-se também pelos
problemas políticos de seu país. Isso não agradava o Czar Alexandre I que o
encarcerou. Na prisão, observando o mundo em ebulição, escreveu, sempre em
versos, o conto filosófico
"A GOTA DE
MEL", talvez o mais
famoso de seus contos. Seria premonição? Logo em seguida estoura a Primeira
Guerra Mundial. Tumanian era poeta versátil e se destacava em todos os tipos
de poesia:
Lírica:
escreveu as letras da opera "Anuch".
Infantis:
"A nora maldita", "O rei e o camelô".
Contos:
"A mãe", " O lobo", "O peixe que falava".
Odes e Provérbios em quadras
(estrofes quatro versos).
Sua inspiração provinha do
rico folclore armênio e da crendice popular de sua província natal.
Tumanian morreu em 1923.
Eis
agora o conto...
Num vilarejo, um camponês
abrira pequeno empório. Certo dia veio um pastor de aldeia vizinha, rapaz
alto, robusto, atlético, cajado no ombro, canzarrão do lado.
– "Bom dia, amigo! Queria um pouco de
mel. Você tem?".
– "Bom
dia, pastor! Claro que tenho. Pega uma tigela e traz aqui!".
E assim, com sorrisos e boas
maneiras os dois conversavam quando, de repente, uma gota de mel caiu no
chão. Imediatamente uma mosca posou nela. O gato do camponês deitado que
estava, ouvindo o zunido da mosca abriu um olho e aproximou-se bem
devagarzinho do inseto. De repente com uma patada matou a mosca. Mas o cão
que estava atento pulou encima do gato, sufocou-o debaixo dele, mordeu-o e
por fim matando-o jogou-o longe.
– "Meu
gato! Meu gato!" gritou o camponês. "Meu único companheiro, você o matou!" e
pegando um espeto de ferro que estava a mão, enfiou-o goela abaixo do
cachorro.
– "Seu
canalha, patife, safado!" gritou o pastor."Você matou o meu ganha-pão, meu
fiel companheiro, guardião das minhas ovelhas" e levantando o cajado
desferiu terrível golpe na testa do camponês que se estatelou não chão dando
o último suspiro.
Um vizinho que passava
presenciou a cena e começou a gritar:
–"Assassino!
Mataram o nosso amigo! Venham ver".
A aldeia toda acorreu.
Homens, mulheres, crianças, pais, mães, filhos, filhas, irmãos, irmãs,
sogros, sogras, noras, genros, cunhados, cunhadas acorreram e vendo o pastor
com o cajado na mão começaram a apedrejá-lo. Pouco depois o forasteiro
desabou e foi trucidado ali mesmo.
Um compatriota do pastor que
estava presente, logo correu para a aldeia vizinha e começou a gritar:
–"Mataram
nosso pastor! Os covardes atacaram-no todos juntos! Não lhe deram chance!
São assassinos!".
A aldeia inteira se levantou
e marcharam em direção a aldeia vizinha, alguns com espingardas, outros com
picaretas, espadas, pás, pedaços de pau, machado, alguns a cavalo outros a
pé, gritando:" Que tipo de gente é essa? Um pobre rapaz vai fazer compras e
é assassinado! Que costume bárbaro! São verdadeiros selvagens! Vamos
vingá-lo! Vamos!".
E deu-se uma verdadeira
batalha. Era para ver quem mataria mais. Com gritos selvagens
engalfinhavam-se. O sangue, feito rio, corria pelas ruas. E tudo se acalmou
quando não havia mais ninguém dos dois lados.
Esses vilarejos situavam-se
de um lado e de outro da fronteira de dois países. Quando o rei de um deles
soube do acontecido, convocou seus ministros e disse:
¾"Acabo
de ser informado que nossos vizinhos atravessando a fronteira, vieram para
massacrar nosso povo. Não podemos tolerar tal agressão. Que nosso exército
seja mobilizado. Vamos atacar esse país de covardes!"
O outro rei, por seu turno,
fez exatamente o mesmo. Iniciou-se então uma guerra sangrenta que durou anos
e anos, semeando terror, fome, e desgraça.
Quando os países ficaram
exauridos, a guerra acabou. Os sobreviventes, nunca souberam o motivo dessa
guerra.
Muitos anos mais tarde, tudo
entrou na normalidade. Tudo foi esquecido pelas novas gerações e as pessoas
voltaram a comprar mel ou vinho, sendo bem atendidos nos dois lados da
fronteira.
Moral:
as
guerras começam quase sempre por motivos fúteis.
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DE QUEM É A CULPA? |
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Um homem muito pobre vivia
penosamente. Não era preguiçoso. Trabalhava sem parar até a exaustão. Mas em
vão. Permanecia pobre.
Certo dia, extenuado e desanimado,
decidiu chegar a Deus contando-Lhe sentir-se injustiçado, não merecer tal sina e
pedir-Lhe para remediar esta situação.
E assim saiu estrada fora.
No caminho encontra um lobo.
–”Bom dia, Senhor viajante! Que
prazer em encontrá-lo! Para onde está indo?” Perguntou o lobo.
–”Falar com Deus. Vou-Lhe falar com
toda franqueza. Creio que Ele foi injusto comigo e vou pedir-Lhe para corrigir
essa injustiça.”
– “Bravo e boa sorte! Encontrando-O,
você faria um favor para mim? Diga-Lhe que eu também fui discriminado. O dia
todo procuro algo para comer. Em vão! Pergunta-Lhe por que me criou se era para
eu morrer de fome? E quanto tempo vai durar ainda este meu tormento?”
– “Está bem,” respondeu o homem,
“falarei de você” e prosseguiu seu caminho.
Depois de certo tempo encontrou uma
linda moça.
–” Bom dia, Senhor viajante! Para
onde vai assim, tão apressado?” perguntou a moça.
–” Falar com Deus, tenho um pedido
a Lhe fazer”
E o homem explicou em detalhes o
conteúdo da sua pretensão.
–”Desejo-lhe muita sorte! Mas não
quer falar de mim também? Diga-Lhe existir na face da terra uma moça, jovem, com
boa saúde, bonita, rica, porém infeliz. O que deve fazer ela para alcançar a
felicidade?”
–”Pode deixar, falarei de você
também” prometeu o homem e seguiu seu caminho.
Andou ainda um bom tempo e depois
parou embaixo de uma árvore cujos ramos estavam desprovidos de folhas.
– “Para onde está indo?” Perguntou a
árvore.
O homem explicou o que queria
fazer.
– ”Sendo assim, não quer falar de
mim também? Não consigo entender este meu destino determinado por Ele. Apesar de
ter raízes num terreno fértil, meus ramos permanecem sempre sem folhagem. Quando
terei, eu também, lindas folhas verdes como as outras árvores?
O homem prometeu falar com Deus a
respeito dele e continuou sua viagem.
Andou dias e noites e por fim
chegou perto de Deus. Saudou-O com humildade e esperou que Ele falasse primeiro.
–”Com certeza, você veio até aqui
para fazer um pedido? Fale! Estou ouvindo.” disse Deus.
–”Dizem ser o Senhor imparcial,
tratando todos os homens da mesma maneira. Eis o meu caso: trabalho feito doido,
até exaustão, faço de tudo e apesar disso continuo pobre e há dias que faço
apenas uma refeição. Conheço muitos, que pouco trabalhando, se tornaram ricos e
levam uma vida faustosa. Onde estão a igualdade e a imparcialidade?
– "Muito bem! Vou aceder ao seu
pedido. A partir de hoje você poderá se tornar rico e feliz. Vá agora, procure e
saiba aproveitar essa tua Sorte.
O homem agradeceu a Deus por Sua
bondade mas, antes de ir embora, falou das súplicas do lobo esfomeado, da linda
moça infeliz e da árvore de ramos sem folhagem.
Para cada caso Deus deu uma
solução. O homem agradeceu novamente e tomou o rumo de volta.
Primeiro, encontrou a árvore.
– “E então, qual foi a resposta?”
– “Ele disse que, exatamente sob
tuas raízes, existe um esconderijo onde se encontra uma enorme quantidade de
ouro. Enquanto este ouro não for retirado, as raízes não poderão alimentar teus
ramos que permanecerão sem folhagem.”
–”Mas isso é formidável!”,
regozijou-se a árvore. “Depressa, vai cavando! Pega todo o ouro! Nos dois
lucraremos com isso: você ficará rico e eu terei minhas folhas.”
–“Sinto muito, mas não posso. Não
tenho tempo a perder. Deus disse para aproveitar a minha Sorte. Vou procurá-la.
Até logo!”
E afastou-se a passos largos.
A seguir encontrou a linda moça
infeliz que lhe perguntou:
– “Qual foi a resposta de Deus?”
– “Deus disse que para tornar-te
feliz deverias casar e dividir com teu esposo as alegrias e tristezas.”
–”Se é assim, case comigo!” Disse a
moça , “assim seremos ambos felizes”.
–”Sinto muito, mas não tenho tempo.
Deus disse para eu achar a minha Sorte. E é o que vou fazer”.
E saiu correndo à procura de sua
Sorte.
O lobo esfomeado o esperava,
impaciente. Assim que o viu, correu para ele e disse:
–“E então? Você viu Deus? O que Ele
disse?”
–“Calma! Antes quero te contar o que
aconteceu. Encontrei uma bela moça querendo saber por que era tão infeliz e a
seguir, uma árvore sem folhagem. Ambos também pediram para interceder junto a
Deus. Deus disse que a moça deveria casar para ser feliz e ela me propôs
casamento. Claro que recusei. Para a árvore disse haver, embaixo das suas
raízes, muito ouro e que era só tirar esse ouro e as folhas voltariam a
florescer. Imagine que a árvore teve o topete de me pedir para retirar o ouro e
ir embora com ele. Claro que de novo recusei! Pois Deus disse-me para procurar e
agarrar a minha Sorte. E é isso que vou fazer. Assim vim correndo.”
–”E para mim? Qual é a solução do
meu problema?” Indagou o lobo
–“O seu caso é um pouco mais
complicado. Você terá que correr e correr sem rumo até encontrar um bobão o qual
você devorará para saciar a sua fome.”
–”Onde poderei encontrar um bobão
mais perfeito que você” replicou o lobo e devorou o nosso herói..
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NOÉ
E A CRIAÇÃO DO VINHO.
Eis a história de
Noé e da criação do vinho, tal qual é contada no país do Monte Ararat.
Após quarenta dias e
quarenta noites de chuvas torrenciais a Bíblia nos diz que a Arca de Noé se
deteve na mais alta montanha da Armênia: o Monte Ararat, ponto de partida de um
novo mundo perdoado e purificado.
O primeiro trabalho de Noé,
ao sair da Arca, foi plantar a vinha para criar o Vinho, cansado estava de ver
tanta água durante o dilúvio.
Ao começar a plantar a vinha,
o diabo aparece e diz
– O que está fazendo aí?
– Estou plantando uma vinha.
– Para que?
– Seu fruto é doce e gostoso. Quando
espremido dá um suco que reconforta o coração do Homem.
– Quero te ajudar, diz o diabo.
– Está bem, responde Noé.
Plantada a vinha, o diabo vai buscar
um cordeiro, um leão, um macaco e um porco. Degola-os e rega a planta com o
sangue deles.
É por isso que quando o homem bebe
vinho, fica primeiro dócil tal qual cordeiro, depois sente-se forte como leão, a
seguir começa a fazer caretas feito macaco e, por fim, quando bêbado, torna-se
um porco imundo.
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O PAI PREVIDENTE
Havia outrora um homem
viúvo muito rico, que tinha um filho único. Ele estava muito preocupado com o
futuro de seu filho, com efeito, o moço tinha muitos amigos com os quais
dilapidava a fortuna do pai. Só pensava em farrear cercados dos amigos que, sem
nenhum escrúpulo, aproveitavam das suas larguezas.
O pai tentava
aconselhá-lo e implorava que renunciasse a esta vida ociosa. Dizia que enquanto
se proporcionam festanças, os amigos se multiplicam, mas ao primeiro sinal de
pobreza eles desaparecem. Mas não adiantava.
Gradativamente o dinheiro
escoava pelo ralo e o pai pensava no que fazer quando sua fortuna acabasse.
Pressentindo o seu fim, o
ancião tenta encontrar um meio para que, após sua morte, seu filho não fique na
miséria.
Um dia, ele retira duas
ripas do teto do seu quarto, enche um jarro com moedas de ouro e o coloca no vão
do teto. A seguir, recoloca as duas ripas no seu devido lugar e usa dois
preguinhos para fixá-los. Coloca, também, entre as ripas um pequeno aro de metal
ao qual está amarrada uma corda. Por fim chama o filho e diz:
“Meu
querido
filho, estou
morrendo. Vou te dar o meu último conselho, imploro que você o siga. Quando
acabar o dinheiro, quando teus amigos desaparecerem quando ficar pobre de
verdade e desesperado, enforca-te com essa corda e pense no seu pai, que tanto
gosta de você.”
Pouco tempo depois, o pai
faleceu.
Após alguns dias de luto
e de lágrimas, o filho torna a viver como dantes.
Todos os bens que o pai
tinha acumulado, com tanto sacrifício, desaparecem em fumaça.
E um belo dia o que o pai
temia, acontece. Pergunta-se, aturdido, como vai viver daqui para diante.
Pede, então, auxílio aos
seu amigos de farra aos quais tanto ajudou. Mas os falsos amigos, esquecendo da
liberalidade do companheiro, zombam dele, o abandonam e vão à procura de um
outro otário endinheirado.
O moço se vê na obrigação
de trabalhar e acha, mal e mal, um lugar de carregador de caminhão para poder
sobreviver. Mas esta vida, à qual não está acostumada, torna-se insuportável.
E um dia, quando o
desespero chega ao climax, ele recorda das últimas recomendações de seu pai e
decide;”Não
há melhor dia para me enforcar”.
Vai até o quarto, sobe
num banquinho, enfia a corda no pescoço, afasta o banquinho com o pé para
enforcar-se. Mas antes da corda esticar por completo, as duas ripas, que estavam
presas pelos dois preguinhos, cedem e o moço se espatifa no chão junto com o
jarro das moedas de ouro.
Nesse instante ele
entende o intuito de seu pai, que colocou esse tesouro prevendo os dias difíceis
e o agradece do fundo do coração.
Decide mudar de vida e
tornar-se o moço que o seu pai tanto sonhara.
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